por Helyete Santos

A insignificância dos cotovelos

Gostaria de poder andar pelos calçadões da cidade ostentando uma grande bandeira colorida que apresentasse palavras em relevo contando, de forma sucinta, quem fui, como sou, quem sou, ou seja, um pouco de mim, uma vez que as pessoas com quem cruzo não querem saber de nada que diga respeito à minha pessoa. Não que eu possa causar-lhes algum repúdio, mas não sentem, como eu não sinto, nenhum interesse maior para dirigir uma atenção especial a mim. Aliás, a maioria delas nem me vê. Devo me apresentar a elas como um ser transparente, chamem como quiser, pois preciso me distanciar delas quando vêm de encontro, chocando-se em cotoveladas, sem sequer pedir desculpas pelo acontecido.

Visualizam apenas seus aparelhos que exibem a chamada tecnologia avançada, capaz de comunicá-las com o outro lado do mundo, ou um mundo que seja conhecido apenas por elas, criado por elas e para elas. Isso não quer dizer que eu não aprove todo esse esquema fantástico. Só que, andar por aí sem ver o céu, o movimento das ondas do mar, saber que piso nas folhas que caem, reconhecer o vizinho do apartamento do andar de baixo- aquele que esteve na reunião de condomínio e aprontou um grande escândalo porque a lâmpada do seu andar queimou na quinta-feira e ainda não tinha sido trocada- me traz a sensação de perda do que o Universo expõe para eu ver e fazer parte, seja a mais insignificante possível, ou a mais esplendorosa.

Mas insignificante sou eu. Isso não quer dizer que preciso me humilhar para demonstrar valores significativos àqueles que eu gostaria que, pelo menos, soubessem de mim. Nos dias atuais, é muito difícil tornar-se importante para o outro, seja um familiar, um companheiro de trabalho, ou aquele que deveria ser um exemplo de conduta nos grandes meios de comunicação. Importante e significativo tornou-se aquele que controla o poder através do que a sociedade chama de ideal, sem mesmo saber as causas e as consequências, mesmo que sejam baratas e pobres diante das conquistas obtidas, mas caras perante os sacrifícios do grupo.

Os olhares deixaram  de se cruzar e traduzir mensagens do coração. O coração, então, explode. Caem pelas ruas seres desconhecidos dos outros, pedintes de carinho, sem sonhos de novas aventuras, sem despedidas, desconhecidos de si. A curiosidade se amontoa sobre um ser que um dia existiu. E os cotovelos voltam a se encontrar, debatendo-se em espaços ínfimos, sem poesia, sem arte, sem cortesia, sem nenhuma importância.

Helyete Santos

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Sou paulistana. Atualmente, moro na cidade de Santos. Atuei como professora de Redação e tenho vários livros publicados sobre técnicas redacionais, como Pais e Filhos Entre Erros e Acertos Editora Edicon. Escrever traz à tona o modo sensível de se viver.