por Andrea Pavlovitsch

A luta da justiça divina

“Tudo o que disser poderá e será usado contra você no tribunal.”

Esta frase sempre encerra os casos policiais dos filmes quando o mocinho, cansado de tanta perseguição, mas com o penteado intocado, prende o bandido. Aí, claro, o filme acaba porque a ideia era fazer justiça. E para fazer justiça, é preciso julgar, ou não?

Vemos coisas na nossa vida que são muito, muito difíceis de engolir. Como eu estou em pleno processo engole meu estômago está quase que diariamente enjoando. Hoje, na aula de yoga, entendi isso. Havia falado para a professora, antes da aula, que eu estava muito nauseada. E ela focou a aula na região do estômago. No meio da posição da borboleta, eu começo a ver um sapo na minha frente. Era um sapo horrível, nojento, cheio de melecas pelo corpo. Era um sapo marrom, inchado, e tinha enfeites nele (como se algum enfeite pudesse ajudar a melhorar a situação). Na hora a ficha me caiu, percebi que eu estava enjoada porque engoli um sapão. Tive uma sensação de melhora na hora, mas depois voltou. Entendi que talvez ainda tivesse sapos habitando as minhas entranhas e fucei mais um pouco. E descobri claro, quando vi a frase acima ser falada num filme policial.

Estou na minha guerra interna com a justiceira que também é a crítica. As duas são irmãs siamesas, e vivem grudadas em mim para cima e para baixo. Como estão em duas, é mais difícil de separá-las. A minha justiceira armou um barraco numa ruazinha da pacata cidade do Guarujá, em pleno carnaval. Um senhor aparentando uns 60 anos, foi fazer compras e deixou o seu cachorro dentro de um carro preto, estacionado no meio da rua. O cão ladrava, arranhava os vidros. Para se ter uma ideia, lá fora a temperatura era de 35 graus. Imaginem quanto estava dentro do carro! Minha temperatura também subiu.

Fui atrás do dono do carro que já vinha aflito pois seu alarme tocava há vários minutos. Ele soltou ele pisa no alarme e dispara. Ah, para que? Então a culpa do alarme era do cachorro? Subi nas tamancas e meu lado Zona Leste de SP veio à tona loguinho. Não baixei o nível, mas tratei de dizer poucas e boas para ele, que começou a retrucar e gritar no meio da rua que se eu tivesse a vida que aquele cachorro tem seria feliz e isso é falta de marido. Outras mulheres indignadas chegaram a chamar o corpo de bombeiros, mas ele focou a sua ira em mim. Era comigo mesmo o negócio. Depois fiquei pensando por que. Se tudo está certo, o cão estar dentro de um carro fervendo também está certo, não é? Uma criança que apanha do pai até fazer xixi nas calças está certo, não está? E uma criatura dos infernos que quer andar 10 cm a mais no transito e te dá àquela fechada também. Então, porque eu ainda me sinto tão mal com tudo isso?

Tudo é o ego. E isso é realmente alguma coisa que eu não consegui dominar. O ego e a minha imaginação, da qual falarei num próximo artigo. O ego quer tudo certo e justo. Mesmo quando ele é injusto com o outro, ele quer ser justo consigo. Ensinaram-nos que Deus é um cara que se vinga. Aqui você faz, aqui você paga e o famoso olho por olho e dente por dente. Mas este Deus não condiz com tudo o que acontece no mundo. Vemos políticos ladrões desfrutarem de férias no exterior e vivendo em grandes palácios. E vemos a Dona Maria, 38 anos, seis filhos, pegando três conduções para as crianças terem o que comer. Então, o que é a justiça então? Prender um cara que matou uma criança arrastada e dar três anos de cadeia para ele? Quanto nós valemos nesta brincadeira? Quando valem as vidas, quando vale o ego, quanto vale o nosso show? Para os enjôos, fui de Dramin. Mas meu estômago ainda embrulha de pensar nas coisas que vemos na TV, nas desgraças, nas injustiças. Então, não existe justiça? Deus não se vinga de ninguém e não te faz arder no fogo do inferno? Então por que eu agiria de forma consciente? Por que eu pegaria o coco do meu cachorro quando for passear com ele na rua? Por que eu não mato a equipe toda de pedreiros que me acordam todos os dias as 7 da manhã com a construção do prédio ao lado do meu?

Por que consciência é isso, retruca o meu mentor espiritual. Consciência é você saber que o mundo tem coisas legais e outras com as quais você não consegue lidar. Mesmo que tente, mesmo que se force a achar normal, ainda não está pronta para isso. Então, decidi só uma coisa. Não brigar mais com o meu ego. Sim, eu ainda tenho uma julgadora e uma crítica ferrenhas dentro de mim, que estão acompanhadas de sapos enormes e outros nem tanto. Mas preciso do exercício diário da paciência comigo e da bondade com o outro.

Não a bondade vazia, só para acalmar a ira de Deus. Mas a bondade de vem do fundo da minha alma, mesmo sabendo conscientemente agora que eu não vou ganhar nada, nadinha em troca. Ainda preciso de tempo para isso. Tempo para não criticar a roupa da fulana que acabou de entrar (e eu adoro fazer isso). Tempo para não xingar todos os motoristas que jogam coisas pela janela, como se estivessem na casa deles (que deve ser imunda). Tempo para desenvolver e conscientizar de que estou encarnada num mundo de dificuldades, igual todo mundo e que, como eles, eu tenho também meus pontos fracos, a serem desenvolvidos. Porque se eles jogam o papel ou prendem o cachorro, eu estou tão errada quanto por julgá-los.

Ainda continuo firme e forte na minha busca. Um dia me verei não julgando alguma coisa e ficarei feliz. E um dia, talvez daqui a muito e muito tempo, eu não julgarei mais nada. Vou esperar e perseverar!

Orai e vigiai. Sempre.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.