por Hellen Reis Mourao

A princesa e a ervilha

“A princesa e a ervilha” é um dos primeiros contos de Hans Christian Andersen, inicialmente publicado em 1835.

Relata a história de um príncipe que desejava casar com uma princesa de verdade, mas ele estava tendo dificuldade em encontrá-la. Em certa noite de muita tempestade, bateu à porta do castelo uma moça, dizendo-se uma verdadeira princesa. Porém, devido às condições do tempo, ela estava em péssimo estado, toda molhada e com água escorrendo pelos cabelos. Para testar se a moça falava a verdade, a rainha a convidou para dormir no castelo. Antes, porém, colocou uma ervilha na cama em que a moça dormiria e, por cima, vários colchões e cobertas.

No dia seguinte, ao perguntar à moça como ela tinha passado a noite, recebeu como resposta que a noite tinha sido péssima, porque alguma coisa a havia machucado. Com esta resposta a jovem comprovou ser uma verdadeira princesa, pois somente uma verdadeira princesa poderia ter a pele tão sensível, e por fim, casou com o príncipe.
 
Esse conto nos mostra que devemos observar o que há por trás das aparências. E que essa é uma característica típica do feminino.

O príncipe deseja se casar, mas não encontra uma verdadeira princesa. Do ponto de vista masculino, esse príncipe simboliza um homem que está em busca de um amadurecimento em relação aos sentimentos. Ele procura uma mulher nobre.

O que há de interessante é que a princesa se apresenta maltrapilha, ou seja, fora do padrão de beleza estipulado. Ela chega toda molhada em uma noite chuvosa. Isso remete a operação da alquimia, a Solutio.

A Solutio é uma das operações mais importantes da alquimia. Está ligada as águas, a limpeza, a dissolução e ao mundo dos sentimentos e das emoções. Ela também é considerada um retorno ao útero, para um renascimento e o surgimento de uma nova forma regenerada.
Do ponto de vista feminino, a princesa do conto está se limpando de coisas que não agregam mais em sua vida, ela está em contato com seus sentimentos e sua sensibilidade feminina. Somente uma princesa, alguém com uma alma nobre pode ser tão sensível a ponto de sentir uma ervilha em sua pele.

O teste da pretendente, feito pela sogra, é um tema comum na Mitologia. Vemos isso de forma contundente no mito de Eros e Psique. Em termos psicológicos, parece que a mulher precisa ser testada, de forma que ela mostre que possui as qualidades e a força necessárias para conseguir tirar o homem dos braços da mãe.

O teste imposto pela sogra consiste em verificar se a candidata possui a sensibilidade à flor da pele. A ervilha colocada sob uma imensa pilha de colchões faz referência a algo muito pequeno e que como grão também simboliza a fertilidade.

A ervilha pequena então significa que a princesa não ignora aquilo que a incomoda por mais ínfimo que seja.

E quantas vezes não deixamos que coisas pequenas, mas que nos incomodam e não nos deixa dormir de lado? E que de uma hora para outra podem se transformar em problemas maiores?

Hellen Reis Mourao

+ artigos

Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.