por Regine Luise

A última romântica

Porque se ela morrer, não terá mais sonhos, nem Bete Balanço, por favor!

Acho que quando a gente tem alguém com quem compartilhar o coração, a vida fica mesmo diferente.

Amor não é um sentimento que fala baixinho, discreto, que fica ali, guardado, quieto, dentro do peito. Amor também não é tranquilo, calmo, tímido. Acho que quando o amor é de verdade, vem mesmo rompendo a porta, abrindo janela, separando paredes. Vem quente iluminando um céu inteiro. Vem faiscando, soltando labaredas, inflamando a fogueira igual na festa de São João. Vem turbulento, com ondas fortes e altas que só se acalmam quando encontram a areia da praia.

O amor é assim mesmo, meio cego, surdo e mudo. Vem sem motivos, sem saber o porque. Vem sei lá de onde. Vem sem ser chamado ou convidado, ele simplesmente vem. Surge dentro do peito e, é alimentado por você e ou pela outra pessoa. Todos os dias, por quaisquer demonstrações de afeto.
Amor bom é amor correspondido. É encaixar as mãos na palma da mão do outro. É se falar no olhar, no sorriso, no próprio silêncio. Amor bom é aquele que a gente não esconde, nem para si, nem para o mundo. A gente grita alto, demonstra, escancara mesmo. Apresenta para os amigos, colegas da faculdade, familiares e até para os professores. O amor quando é grande, enche o coração, transborda pelos olhos e escorre pela boca. Porque se for para amar em silêncio, é melhor nem amar. Precisa demonstrar, precisa vivê-lo mesmo.

E, que fique claro, não se trata de amar pouco. Não, não e não. Tem que amar por inteiro, se doar, passar vergonha mesmo. Tem que meter os pés, as mãos, o peito. Precisa entrar de cabeça, se jogar mesmo... Mesmo que não saiba o que vai encontrar do outro lado.

É claro que a gente pode sair machucado, ferido. Podemos chorar lágrimas, rios e mares. Podemos ter vontade de desistir de tudo, podemos não ter vontade de fazer mais nada. Só que precisamos tentar. “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, é o que nos aconselharia o grande poeta Fernando Pessoa. Ou ainda, nosso querido amigo Guimarães Rosa quando dizia: “porque o que a vida quer da gente é coragem”.

Porque quando o amor é grande e de verdade, o medo serve como desafio. Ter medo não é sinônimo de desistência, mas sim, de coragem. Coragem para brigar, separar, namorar outra vez.

Quando a gente ama, a gente se entrega mesmo. Abre um universo paralelo onde só cabe você e ele. Ele e você. Os defeitos dele são diminuídos, as qualidades, elevadas e enaltecidas. O jeito dele vai se encaixando com o seu ou você vai se moldando ao jeito dele. Aos hábitos, aos estilos musicais, ao jeito de falar, pensar, agir.

Você começa conquistando a amizade, cerca com uns mimos, umas massagens, uns abraços. Investe num beijo e completa com amor. Conquista os amigos, os parentes, os primos. Passa pela mãe e termina na avó. Pronto. Quando perceber já terá conquistado a família inteira.

Então você entra nessa guerra que é o amor, dos pés a cabeça. Entra com tudo, mergulha de cabeça, sem se preocupar com nada. Entra porque quer, porque gosta, porque precisa entrar. E vai percebendo, aos poucos, que precisa tanto daquela pessoa como precisa de oxigênio. E por assim dizer, como precisa de amor no coração.

Mas vejam só quem está dizendo isso, a última romântica. Aquela que se doa, ama, dramatiza, sorri, chora e escreve. Não necessariamente nessa ordem e, procura incansavelmente alguém que também queira isso ou pelo menos uma parte disso.

Mas então, a última romântica, aquela moça de passos cansados e olhos marejados está cansada, magoada, inconformada, desgostosa com o amor. Logo ela que carregava tanto brilho no olhar, logo ela que carregava tantos sonhos no peito, logo ela que carregava tantos traços de sorrisos. Sim, ela a última romântica está querendo parar de conjugar o verbo amar.

Porém, contudo, entretanto e todavia, isso não pode acontecer. Se a última romântica morrer, as flores jamais terão o mesmo aroma, a comida jamais terá o mesmo sabor, as histórias não serão mais contadas com o mesmo drama, as lágrimas não serão mais tão verdadeiras e os sorrisos tão pouco serão sinceros. Se a última romântica morrer, o whatt, a caixa de email, o g-talk, o sms e o facebook não serão mais tão doces. Não terão contínuas demonstrações de afeto para a irmã, amiga, avó e para o namorado. Se a última romântica morrer não terá mais versos, estrofes, poesias.

Se a última romântica morrer, não terá mais aquela paixão e sonho para conseguir entrar no mundo do rádio. Não terá mais aquelas gargalhas fora de hora sem motivo, sem razão. Se a última romântica morrer não terá mais valorização por amizades sinceras, não terá mais o evitar a qualquer custo de dizer adeus para quem nem quer ficar. Se a última romântica morrer, não terá mais um mundo paralelo de uma ingenuidade tão bonita, com um açúcar e afeto de fontes inesgotáveis.

Se a última romântica morrer, não terá mais sonhos, nem Bete Balanço, por favor. Se a última romântica morrer, só terá frio na Terra do Nunca e, não tem Peter Pan, Sininho, nem pó de pirimpimpim que tragam ela de volta.

Se a última romântica morrer, junto com ela morre um pouco da esperança, do mel, do carinho. Se a última romântica morrer não há vida, porque sem ela, não há amor.

Por favor, alguém salve a última romântica!

Regine Luise

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Jornalista, poeta e romântica nas horas vagas. Regine Luise ama, doa, sonha, dramatiza, sorri, chora e escreve. Não necessariamente nessa ordem.