por Andrea Pavlovitsch

Contos de fadas existem?

“Carpe diem - aproveite o dia.”

Quando somos crianças, somos bombardeadas com histórias de princesas e príncipes. O cara ideal que vai nos salvar da torre de marfim, vai nos levar para conhecer o mundo com ele, vai nos encher de presentes e nos tratar como as rainhas das histórias. Ele precisa ser belo, gentil, honesto e, claro, suficientemente desafiador para não nos fazer cair no tédio. Ou seja, o famoso príncipe encantado.

Claro que, para isso, precisamos cumprir certos requisitos. Precisamos manter o peso abaixo, muito abaixo dos três dígitos, mais ou menos na metade disso. Precisamos de educação refinada, não dizer palavrões, não soltar gases por nenhum buraco do nosso corpo e estar sempre fresh, cheirosas e como se acabássemos de sair do banho. A bunda sempre dura e empinada, as coxas firmes e as saias suficientemente curtas para o jogo do mostra-esconde.

Nossos rostos já perfeitos com o uso de Botox, ácidos e outras mazelas, ficam encobertas por uma fina camada de maquiagem mineral que só realça nossos traços já bonitos e delicados, escondendo as temidas imperfeições. Imperfeições. Que palavrão. Corremos dela o tempo todo tentando nos manter perfeitas, desejáveis, bonitas e gostosas. E parece que quanto mais você corre atrás, mais ela corre de você. Eu sou uma destas pessoas que se ama, sabe? Eu adoro me cuidar. Faço ginástica, tenho dermatologista, esteticista, manicure e ginecologista. Olho-me no espelho e procuro o que consertar. Devoro revistas de beleza e moda, mas só consegui fazer estas coisas todas quando parei de tentar ser perfeita. Não, os príncipes encantados não existem. Mas as princesas também não e talvez esta seja a nossa pior ilusão. É uma vontade tão grande de agradar, de ser perfeita, de caber nos esquemas sociais que um dia acordamos e nem temos vontade de escovar os dentes, que é uma medida de higiene, e não de beleza.

Parece que vem uma revolta lá de dentro, de tudo o que poderíamos fazer e não podemos porque não somos perfeitas. Por mais que nos esforcemos no trabalho, sempre deixamos uma coisa para fazer. Por mais que não faltemos na malhação, tem sempre uma celulite teimando em morar na nossa coxa e não sair de lá tão cedo. Por mais que eu revise este texto, deve ter um ou outro erro de português que, sim, passou despercebido. E nunca, nunca vamos dar conta de tudo o tempo todo.

Ser uma mulher alfa com todos os aspectos da vida resolvidos. Isso sim é um conto de fadas. O pior é que queremos de volta o nosso investimento. Queremos homens que nos dêem coisas que não nos damos. Queremos pais que nos compreendam 24 horas. Queremos amigos que nos apóiem incondicionalmente quando não fazemos isso conosco.

Quantas vezes você cometeu um erro, um erro bobo, e acabou com você por isso? Qual o tamanho do medo que você tem de errar, que te faz nem tentar? Por que simplesmente não aceitamos que isso aqui, a vida, é um processo evolutivo e que sim, já somos criaturas perfeitas, aprendendo, aprendendo? É um processo. Uma maneira de ver. Não é errado gostar das coisas, amar-se e querer se ver melhor. Não é errado ser como somos. Não estamos errados. Temos dias de glória, mas antes dele, temos o trabalho. Os acertos e os erros e, aí sim, o final feliz da história.

Como diria o poeta: No fim tudo dá certo. Se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.