por Leandro José Severgnini

Enquanto julgamos, não contemplamos!

Há uma história zen sobre um mestre que era cego, mas como todo verdadeiro mestre, a sua visão espiritual estava perfeitamente desenvolvida, ou seja, cego fisicamente, mas com os olhos espirituais perfeitamente abertos. Mesmo tendo sua visão física completamente comprometida, ele percebeu que um de seus discípulos estava tomado pela tristeza e aproximou-se deste discípulo para questionar sobre o motivo de sua tristeza. Nisto o discípulo respondeu: "Mestre, o motivo de minha tristeza é a sua cegueira. Me deixa muito triste o fato de você não poder contemplar a exuberância das flores; fico muito triste por saber que você não pode apreciar o colorido dos pássaros". Tomado de compaixão o Mestre treplicou: "Meu filho, você acha mesmo que toda a beleza de um pássaro está restrita à sua plumagem? Você acha mesmo que a beleza de uma flor existe apenas em suas pétalas?". E o Mestre continuou: "Veja, por exemplo, a beleza desse gafanhoto que está passando ao nosso lado neste momento!". Sabendo que o Mestre era cego, o discípulo se surpreendeu com o fato de que o Mestre era capaz de perceber aquele gafanhoto e inquiriu: "Mestre, como você é capaz de perceber este gafanhoto?". E o Mestre encerrou a discussão dizendo: "Meu filho, e eu me pergunto como você não é capaz de percebê-lo?".

Assim como as parábolas de Jesus, as histórias zen são riquíssimas em ensinamentos. Com uma única história, podemos tirar vários aprendizados. Um dos ensinamentos deste conto é que ele nos faz perceber como ainda necessitamos desenvolver as nossas percepções extrassensoriais, pois esta é uma riqueza que levaremos por toda a eternidade. Mas como desenvolver? Aí é que entra um segundo ensinamento.

Cada tradição esotérica vai trazer uma determinada forma de desenvolvimento espiritual (meditação, cantos mântricos, orações devocionais, etc.). Mas existe um aspecto do desenvolvimento moral que é esquecido em algumas doutrinas, que é o não julgamento! Aqui não me refiro apenas ao julgamento alheio, pois este é muito importante, mas não é só isso. O problema de qualquer julgamento é que sempre vai haver uma espécie de divisão: Bonito/feio, positivo/negativo, bom/mau, divino/diabólico, etc. Na história anterior, vimos que o discípulo cometeu o erro do julgar que apenas os pássaros e as flores eram belos e dignos de contemplação, excluindo o gafanhoto. Mas o Mestre que transcendeu o conceito dual sentenciou: "Como você não é capaz de enxergá-lo?".

Se olharmos com sinceridade para dentro de nós, poderemos avaliar se estamos cometendo esse tipo de julgamento. Creio que de alguma forma todos nós julgamos algo ou alguém:

- Julgamos aquele que não pensa igual a nós;

- Julgamos que a nossa ideologia é a única digna;

- Julgamos que um gatinho manso é obra divina, mas que um leão selvagem é obra de Satanás;

- Julgamos os acontecimentos de nossa vida como bons e maus segundo os anseios do nosso ego. Entre outros julgamentos.

E é extremamente comum vermos pessoas com todos os tipos de problemas expressando seu sorriso de contentamento, enquanto outros questionam: "Como você consegue sorrir o tempo todo?". Ao passo que aqueles poderiam dar a mesma resposta que o Mestre deu ao seu discípulo: "E eu me pergunto como você não consegue sorrir?".

Creio que antes de esbravejarmos perante as dificuldades, seria mais sábio apenas contemplar, aprender tudo o que temos para aprender e simplesmente agradecer! Entenda que o fato de você não se agradar com as coisas que acontecem não significa que elas estejam erradas, mas que você ainda não desenvolveu discernimento suficiente para entender que tudo está em seu devido lugar. E por favor, aconteça o que acontecer, jamais perca a capacidade de se emocionar com a magnitude da vida!

 

Leandro José Severgnini

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Palestrante e escritor. Autor dos livros intitulados Dias de Luta, Dias de Glória e Liberdade - Nada Menos Que Tudo.