por Andrea Pavlovitsch

Não se perca de você

Sabe aquela música do Chico Cesar, ‘À primeira vista?’ (joga no Google, é bem bonitinha). Tem uma frase ótima nela:

“Quando lhe achei me perdi. Quando vi você, me apaixonei”.

 

Beleza, vamos falar disso. De ser perder pelo outro.

Então, amar é legal. É super legal, na verdade. É boa a sensação quando você encontra alguém que te faz pensar nele o dia todo. Quando você sabe que vai ver e passa o dia com borboletas no estômago. E quando a pessoa retribui, nirvana. Não que relacionamentos sejam fáceis, é difícil até quando é fácil, mas mesmo assim é ótimo.

Mas é o seu ótimo. Se você está apaixonado por alguém, é você quem sente. É você que tem em quem pensar. É você que pensa em comprar doces portugueses para ele ou uma camiseta do Super-Homem. É uma coisa sua. A gente faz isso porque faz a gente feliz, e não necessariamente o outro. Mesmo que ele ame pastéis de Santa Clara, ainda será seu o prazer de dar um presente. Por você. Sempre.

É essa a parte que a gente se perde. E passa a achar que está, que tem que, que precisa fazer pelo outro. Aquele doce fica amargo em dez minutos. O que era para ser um presentinho besta de “lembrei de você”, passa a ser uma fonte inesgotável de uma doença mental chamada “labirinto da mente”. E quando a gente sai da casinha, se esquece mesmo porque começou a coisa toda e passa a representar papéis. A gente não é mais a gente mesmo. E por isso que eu chamo de se perder de si.

Começa devagar. Você falta na aula de yoga porque ele quer ir ao cinema. Com o tempo, você vai fazendo tudo o que o outro quer e precisa, e achando que isso é o certo. Para que continuar a frequentar aquela aula de culinária? Melhor ficar na cama com ele mais um pouquinho. Para que conversar com uma amiga, se o que você quer mesmo é conversar com ele? Se chegou nisso, minha amiga, você está bem ferrada. Se enrolou toda.

Isso é cultural. Aprendemos isso. Estou falando do ponto de vista feminino porque é mais fácil acontecer com a gente do que com os homens. Somos ensinadas, desde criancinhas, que precisamos cuidar do outro. Ganhamos bonecas e mais bonecas, que veem com talco e fraldinhas para serem trocadas. Ganhamos fogões para cozinharmos (para a família). Quando somos adolescentes, não podemos tratar os meninos mal, isso é feio. Não podemos dar a nossa opinião sobre nada, meninas não fazem isso. No final, aprendemos que devemos viver para o outro e, pior, que é isso que ele quer.

É a melhor maneira de espantar alguém da sua vida. Você vai ficar perdida, sem saber onde estava. É uma ótima maneira também de manter uma idealização irreal (obviamente toda idealização é irreal, mas sejamos enfáticas) do outro. Não dá para saber quem ele é se estamos ocupadas demais fazendo coisas que não são nossas.

Que tal parar de entrar nessa espiral do horror e viver as coisas por você? Viver o que tiver que viver. Analisar os prós e contras, se está recebendo o tanto que está dando, se é algo realmente recíproco, ou só alguma coisa na qual você quer acreditar. É melhor fazer isso antes dos sentimentos virem à tona. Antes de você ficar tão ansiosa que é melhor terminar com tudo de uma vez. Antes de estragar tudo de novo.

Não, você não é responsável por manter nada. Se te faz bem, faça. Mas não se perca na coisa toda. Não deixe de ser você, não deixe de fazer nada por ninguém (aqui entram paixões, amores, pai, mãe, cachorro). Às vezes, o outro precisa mesmo da gente, para levar num hospital, por exemplo, mas na maioria das vezes, é só a gente mantendo as nossas carências. Pense nisso!

Andrea Pavlovitsch

+ artigos

Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.