por Andrea Pavlovitsch

O apego à vida

Lembro-me das cenas que assisti na televisão, num desses programas de TV a cabo que mostram grandes tragédias, a história de um shopping na China que desmoronou do mais absoluto nada, levando milhares e milhares de toneladas de concreto ao chão em poucos segundos. Muitas e muitas vidas foram esmagadas por entre os escombros. As equipes de buscas demoraram mais de um mês para acabar de encontrar todos os corpos das vítimas, principalmente as que estavam no subsolo do local. Uma verdadeira tragédia. Não menos interessante, já que para nós, seres humanos, tanto a dor quanto o prazer nos chamam a atenção da mesma maneira, foi a história de uma jovem de 20 e poucos anos, que trabalhava nesse subsolo.

O shopping desabou, literalmente, sobre a sua cabeça. Por um milagre do destino uma viga parou bem diante de seu corpo, escorando o restante de material que caía, formando uma espécie de caverna. Ela estava viva, apesar de ouvir os gemidos e a morte acerca dela. Ela abriu os olhos e, sem saber o que estava acontecendo, conseguiu, por um dia, conversar com uma amiga que ainda sobreviveu nas mesmas condições.

"Escolher que pulsão seguir, a de vida ou a de morte, faz sim parte das nossas escolhas.

Depois desse período ela não a ouvia mais. A jovem passou ali sete dias até que alguém a encontrasse. Bebia a água que era jogada nos escombros pelos bombeiros e que, de alguma maneira ainda mais milagrosa, chegava até ela. Estava enterrada viva, com toneladas de escombros em cima dela e sem ao menos saber seria ou não resgatada. No final da história a jovem sobreviveu para contar seu drama ao mundo.

Conheço um homem que tem um câncer em fase terminal há 12 anos. Sim, 12 anos! Já foi desenganado pelos médicos quatro vezes e sua família sempre carrega, em uma pasta, os documentos para o velório e enterro, mesmo sabendo que, possivelmente, ele ainda vá sair de mais uma de suas inúmeras internações nas Unidades Intensivas de Tratamento. Este homem não se entrega. Tem uma personalidade forte, robusta e, mesmo com um corpo definhando a cada dia, ainda prefere continuar vivendo.

Afinal de contas o que é que faz com que essas histórias tenham os seus finais sempre felizes? Até que ponto a mãe natureza perdoa e dá uma nova chance a seus filhos? E por que outras histórias, menos dramáticas, costumam terminar em morte? Afinal o que nos apega tanto à vida?

Muitas religiões tentam explicar esses fenômenos com lendas e explicações de cunho espiritual. Freud nos falava sobre as pulsões de vida que ele definia como pulsões que tendem não apenas a conservar unidades vitais existentes, como a constituir, a partir destas, unidades mais globalizantes e uma tendência que procura provocar e manter a coesão entre as partes da substância viva... Alguns autores de cunho biológico definem isso como um instinto de sobrevivência ou auto conservação que está carimbado em nosso DNA e nos protege de todas as adversidades. Poderíamos, ainda, enumerar um bocado de explicações, umas mais científicas, outras nem tanto.

O que um homem que sobrevive a um câncer me diz é que, no mais óbvio, ele não quer morrer. Talvez até por não ter ideia do que o espera. O vazio? O nada? Um mundo de maravilhas ou um inferno ardendo em chamas? O imaginário é, de fato, o berço de todas as superstições e elucubrações sobre o que os espera. Mas será que somente o medo da morte teria o poder de segurar uma vida? Acredito que não, afinal apesar do poder incontestável que o medo tem sobre os seres humanos, sabemos que ele é passível de ser modificado. Com medo, realizamos o irrealizável, mas, em algum momento, temos a tendência de nos entregar, o que geralmente faz com que as coisas aconteçam. Além disso, o medo faz parte do imaginário muito mais do que a constatação de um perigo real, por mais real que ele realmente é. Crianças, que não costumam ter medo de nada, geram preocupação em adultos exatamente por não terem o discernimento do que é ou não realmente perigoso pra elas.

Se o medo nos segura, então, de alguma maneira, existe outra força propulsora em nós, que nos levaria para frente, adiante. Ora, não adiantaria somente algo que nos segure que não houver uma mão que nos tira do precipício. Além do mais, em casos como o da jovem chinesa, ela não teve ao menos tempo de ter medo. Então o que, de fato, nos faz sobreviver enquanto outra pessoa não? Será que, de fato, existe um destino? Será que, de fato, negociamos com a morte, barganhando com a nossa vida como de fato a única coisa que nos pertence no mundo? E mantemos isso por conta de uma série de pulsões que nos fazem sobreviver desde uma gripe até um câncer?

Então, se temos essa força, se temos essa possibilidade inominada de sobreviver, quer dizer que podemos, sim, conseguir as mudanças que desejamos e a sobrevida que tanto nos preocupa. Se seu corpo tem a capacidade quase mágica de se recuperar de um corte, porque não teria de se recuperar de uma doença mais grave ou até mesmo de ferimentos graves? De fato, a única conclusão a que chegamos é que tudo depende do quanto acreditamos. Do quanto acreditamos na vida, acreditamos que poderemos nos recuperar, acreditamos e ficamos do lado da nossa pulsão de vida. Escolher que pulsão seguir, a de vida ou a de morte, faz sim parte das nossas escolhas. Escolher se vamos nos entregar em uma situação qualquer na vida ou se vamos fazer a diferença e mudar aquilo tudo, por mais improvável que pareça, é aquilo que difere uma pessoa que morre de gripe de uma que continua viva depois de cair de um prédio de 14 andares, passar por um incêndio, ou dramas mais psicológicos como uma separação ou doença na família.

Então, escolhamos a nossa pulsão de vida, sempre, para cumprir o que nos designamos a cumprir. Aqui, vivos e operantes.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.