por Leandro José Severgnini

O caminho espiritual

Em um de seus discursos mais célebres, Jesus disse que “muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos". Como todo grande ensinamento espiritual, este discurso também assume a forma de uma parábola e, por conta disso, há margem para muitas interpretações. Mas seguindo uma linha de raciocínio esotérica, creio que não seria nenhuma heresia acrescentar uma pequena palavra à essa frase para facilitar a interpretação: "muitos são os chamados, mas poucos são os auto-escolhidos". Alguém pode questionar: "como assim auto-escolhidos"? 

Para quem busca o caminho do autoconhecimento, não é nenhuma novidade que somos seres espirituais ocupando corpos humanos unicamente com o propósito do progresso baseado no aperfeiçoamento moral. Pautado ainda pelo conhecimento das múltiplas reencarnações, sabemos que a vida não se resume a esta existência neste corpo físico; que já estivemos aqui muitas vezes e estaremos tantas outras. Logo, podemos facilmente chegar à conclusão de que todos possuímos a mesma origem cósmica, a mesma origem divina e que todos temos as mesmas possibilidades de evoluirmos. O único fator diferencial está no nosso livre arbítrio e com ele podemos acelerar ou retardar o nosso progresso. A grande consciência cósmica não vai interferir na liberdade que ela mesma nos deu. 

Então, analisando a afirmação de Jesus, podemos questionar: se muitos são os chamados e poucos os escolhidos, quem é que escolhe estes sortudos? E qual o critério? Será que Deus escolhe uns em detrimento de outros? Na linha de raciocínio das religiões ortodoxas, esta parábola de Jesus não faria muito sentido, pois não há sucessivas vidas para o aperfeiçoamento de cada indivíduo, e sabemos que uma única existência não nos permite tal empreitada, pois os fatores econômicos, sociais e culturais de cada ponto geográfico interferem diretamente no desenvolvimento de cada um. E além do mais, se Deus criasse as almas para uma única existência na matéria, e alguns indivíduos fossem criados com uma única oportunidade de se desenvolver em uma zona de guerras e conflitos, certamente que a grande maioria não estaria entre os futuros escolhidos, pois que a própria criação os desfavoreceu.

Mas então, quem é que escolhe? Na minha opinião, nós mesmos é quem nos escolhemos, por isso o termo "auto-escolhidos". É uma questão de sintonia, de conexão com os princípios divinos e não apenas de crença ou de ritualismos externos. Por isso que a mensagem dos grandes mestres de todas as épocas sempre girou em torno do amor e do autoconhecimento. Essa "auto-escolha" só é possível com um profundo sentimento de devoção à divindade que reside em cada um de nós, de uma postura serena apesar de todas as dificuldades, de uma disciplina interna no sentido de desabrochar aquilo que há de melhor em cada um de nós: a nossa natureza divina! Particularmente, entendo que o desabrochar de nossa natureza divina só acontecerá aos que propuserem a semear os grãos da moralidade e da ética cósmica. 


"A doutrina espírita vêm nos trazer a liberdade espiritual, e o evangelho de Jesus nos ensina o que fazer com essa liberdade" - Chico Xavier

Leandro José Severgnini

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Palestrante e escritor. Autor dos livros intitulados Dias de Luta, Dias de Glória e Liberdade - Nada Menos Que Tudo.