por Andrea Pavlovitsch

O Deus de amor puro

A vida é dura. E tem dias em que ela e mais dura e cruel que em outras. Parece que todas as suas sombras, aquelas mais escondidas, saem de suas tumbas escuras e invadem o seu dia.

O seu pai começa a brigar com você e dizer coisas na sua cara, do mais absoluto nada, e não são absolutamente verdade. Você é xingada no trânsito, por velhas loucas, por crianças que limpam vidros nas esquinas. O mundo inteiro parece estar contra você, contra o que você é e quem você é. E depois de chorar umas duas horas tentando entender o que está acontecendo você se toca que, de alguma maneira, você está atraindo aquilo. Sim, seu pai não está nos seus melhores dias, mas porque pegou você e não a sua irmã para Cristo? O transito de São Paulo é mesmo um caos, mas porque você parece atrair todas as velhinhas cegas e carros mais velho do que o seu na sua frente?

Atração. Alguma coisa das suas sombras está tentando emergir. Está tentando dizer: Hei você, eu estou aqui. Eu existo e você terá que me encarar mais cedo ou mais tarde. E neste caso é melhor que seja mesmo mais cedo, assim você se livra logo disso. E lá vamos nós! É interessante como coisas que nós achamos que já passaram, que já foram superadas, voltam de alguma maneira. Depois desta semana de cão, sentei-me em frente a um terapeuta de vidas passadas, para entender alguma coisa sobre mim mesma (ou mais alguma coisa sobre mim mesma). Este terapeuta, um médium, começou a dizer coisas que, em absoluto não tinham nada a ver com a consulta ou comigo (pelo menos não até eu entender o recado). Ele falou de Deus, do Deus de justiça que todos nós acreditamos. Que este modelo de Deus, de carma, é o que acreditamos ser o verdadeiro. Se fizermos o mal, levamos o mal. Se alguém faz o mal, leva o mal. Mas o que dizer de pessoas que são ruins e continuam numa boa? Não, ele disse, não existe esta justiça cega que nós acreditamos. Deus é amor puro e ele não está interessado na vingança. Ele não está interessado, quem está interessado somos nós.

As coisas, aos poucos começaram a fazer sentido para mim. Então, aquela sensação de injustiça que eu sentira a semana toda tinha alguma finalidade. Por que então, eu tinha me sentindo assim? Sentia que todos estavam me atacando de graça, que isso não era justo! Por que eu estava acreditando na justiça. Acreditando que deveria ficar péssima e me vingar. Não porque eu sentia isso como algo meu, mas como se eu sentisse isso como algo de fora, do outro. Acreditando nas coisas que meu ego estava me dizendo, principalmente do meu orgulho.

Iniciei um exercício desde então, um mantra. As coisas são como são. Repito isso no transito caótico, quando alguém me fala algo estúpido ou quando vejo uma desgraça na TV. As coisas simplesmente são como são. E tudo, absolutamente tudo está servindo aos propósitos das almas envolvidas. Seja lá de que maneira isso for. Isso tira a nossa noção de certo x errado, bom x mal, como se tudo fosse assim tão dicotômico. As coisas só são. São. É. Sim, as coisas aumentam no supermercado. Isso é. As pessoas descontam seus problemas nas outras. Isso é assim mesmo. Aceitar, o mundo como ele é, por mais esquisito que pareça.

Outra coisa que ouvi do sábio terapeuta: medos são naturais. Quando contei do meu medo de avião ele me deu razão. Só as pessoas loucas acham mesmo que é seguro você estar há 10 mil pés de altura, preso numa cabina pressurizada com oxigênio de menos. Nunca havia pensado neste meu medo como algo natural. Para mim era só algo que eu precisava mudar com urgência, que me atrapalhava demais. Depois que passei a ver as coisas assim, simplesmente relaxei. Estou mais calma com relação a isso e não acho mais que sou uma coisa estranha e esquisita que tem medo de voar. Sou normal e tenho medos naturais.

Todas estas experiências mexeram demais comigo. A segunda parte da consulta, da vida passada propriamente dita, eu conto em outro texto, porque ainda não foi completamente assimilada e trabalhada. Mas com certeza, redescobrir um Deus de amor dentro de mim, de um amor puro, já é um primeiro passo (ainda que pequeno) em direção a minha alma. Não que eu vá me tornar zen budista do dia para a noite, mas passar a perceber as coisas com menos cobrança, com menos justiça e com menos sede de vingança.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.