por Andrea Pavlovitsch

O medo da felicidade

Existe um termo em terapia muito presente: resistência. Ou seja, o quanto o sujeito precisa, quer e faz para não fazer a terapia. Quanto ele não aceita o que o terapeuta propõe, não escuta ou simplesmente não faz mudanças. Faltar à sessão, alegar falta de dinheiro ou falta de tempo e não avisar o terapeuta de coisas importantes costumam mostrar que a pessoa está resistindo, bravamente, a se entregar ao processo.

E a resistência, apesar de ser identificada na terapia, está presente na nossa vida. Resistimos a tudo e a todos. Resistimos a novas ideias, a novos conceitos. Resistimos à mudança. Resistimos a coisas que obviamente parecem ótimas para nós. Resistimos, até mesmo, a sermos felizes.

O medo da felicidade é inerente ao ser humano. É aquele grande “não” que carregamos dentro de nós mesmos. Aquela parte nossa que não quer. Que acha que é tudo bobagem, que vai passar. Aquela parte que cancela um encontro com um cara legal aos 45 do segundo tempo, mesmo que o que você mais queira seja um relacionamento. Aquela parte que pega o caminho errado para a entrevista de emprego. Lembro-me de uma vez, numa entrevista de emprego. Eu já tinha passado por quatro fases de entrevistas, provas e dinâmicas de grupo. Faltava só uma última entrevista, com todos os diretores da empresa. Fui superbem em todas as etapas e sabia que um dos diretores me contrataria com certeza, então dei um jeito de resistir.

No dia da entrevista, ao invés do clássico pretinho com calça e camisa branca, eu tasquei um vestido de hippie. Daqueles que nem em Woodstock eles teriam dúvida da minha origem. Um cabelo que não viu o pente de manhã e um chinelo (sim, eu escrevi certo), um chinelo de dedo. Quando entrei na sala, as pessoas mal me reconheceram. Entrei, falei meia dúzia de bobagens e, não satisfeita, ao sair, derrubei o filtro de água! Como? Não tenho ideia. Mas a resistência era tanta que consegui dar a maior gafe da história das entrevistas de emprego.

Claro que não consegui a vaga e passei mais alguns anos reclamando de não conseguir nada na vida (até me tocar dessas coisas). Isso nós fazemos em tudo: relacionamentos amorosos e familiares, trabalho, dinheiro. Tudo pode ser visto de uma maneira negativa e pessimista, a ponto de não querermos mais. Mais nada. Obrigada.

Então, proponho um exercício aqui: ao que você anda resistindo? O que você sabe que te faria feliz, mas prefere não olhar? O que parece tão bom que dá medo? Sim, coisas boas e felicidade nos dão muito medo. Nos fazem sentir como se fôssemos morrer, literalmente, de felicidade. Felicidade não mata (a não ser que você saia saltitando feliz no meio de uma avenida movimentada, mas isso já é drama e não felicidade). Felicidade é só o que você realmente merece.

Não resista. Solte suas amarras e decida-se por algo que realmente faça sentido pra você. Sinta o que te faria feliz e saiba que, sim, você merece. Você merece e não, não precisa pagar com dor e sofrimento. Não, o velho ditado de “quem muito ri, muito chora” só faz sentido para quem realmente acredita nele. Se você acreditar que pode ser feliz, é isso que você será. Só feliz.

Pense nisso!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.