por Andrea Pavlovitsch

Para fazer ele te amar

Escuto tanto a pergunta: "Como eu faço para ele gostar de mim?". Claro que ela não vem assim, com todas as letras. Ela vem disfarçada, camuflada pelos sutiãs queimados das feministas de outrora. A pergunta que sai da boca é: "Tem alguma coisa assim que poderia nos aproximar e fazer com que ele deixasse essas resistências em me assumir?" - assim mesmo, com cara de tese de doutorado. Mas a verdadeira intenção da pergunta é: "Pelo amor de Deus, estou desesperada para que alguém me ame e ele parece uma boa escolha." Nem sei qual delas é pior.

Os centros de magia (preta ou branca) estão lotados destas pessoas. As cartomantes e tarólogas sofrem com as mesmas respostas e perguntas. Sempre. Mas o que acontece para uma mulher bonita e interessante chegar a este ponto de carência e desespero, cheirada de longe por oportunistas e (ainda mais) carentes de plantão?

Eu poderia dizer que é o relógio biológico, já que algumas ainda acreditam que nós temos "prazo de validade". Ouvi outro dia uma conversa de duas comadres no metrô (talvez até mais jovens do que eu) dizendo: "Ah, nosso tempo já passou, agora é a vez das menininhas de 15 anos". Alguns médicos ainda acreditam que uma mulher de mais de 35 tem 100% de chance de ter um filho com problemas mentais, ou ter abortos espontâneos a torto e a direito. Mesmo com tantos casos de crianças perfeitamente normais e sadias de mães tardias. E também, se seu filho precisar vir assim, você não vai amá-lo do mesmo jeito ou mais?

Eu também poderia culpar a cultura vigente. Uma mulher sem um "companheiro" ainda é vista como uma "extensão" do seu pai e sua mãe. Alguém menor, que não teve a nobre capacidade de "segurar um homem". E o preço disso são mulheres que sofrem abusos absurdos para "não ficarem sozinhas".

Também poderia culpar a culpa. Sim, culpar a culpa. Uma mulher que escolhe ficar ciscando por aí e não se casar e ter filhos, como reza a boa educação católica, é vista como uma vadia. Como assim você não quer casar? Vai ficar "galinhando" a vida toda? Ou pior, a máxima de que uma mulher que não se casa "não quer crescer". Você precisa amadurecer e ter um marido e filhos. Não interessa se, antes dos 40, você conhece 25 países, fala quatro línguas, tem duas faculdades e mora sozinha com um bom salário, você não quis amadurecer (e fazer o sacrifício que todas as outras fazem). Isso não é legal. Descobri estes dias que, pelo SUS, se uma mulher quiser fazer uma laqueadura, mesmo que já tenha filhos, precisa da autorização do homem que a inseminou! Se ela não for casada, precisa assinar uma união estável pelo menos. Se o pai do bebê sumir, azar seu, aprenda que os homens decidem quando podemos ou não parar de procriar. Vamos lá conseguir alguém.

Ter um casamento ainda é visto, muitas vezes, como um troféu. Você foi uma boa moça, vai ganhar um bom marido. Tem uma profusão de programas sobre "casamentos dos sonhos" (da noiva, claro), "vestido ideal" e a “lua de mel perfeita”. O mais engraçado é que as chamadas destes programas nunca passam no intervalo do futebol ou na ESPN. Só nos canais de "mulherzinhas”. E aí você não consegue entender porque se sente tão pressionada a ter alguém. Ué, não parece motivo suficiente?

E aí, meu bem, é a guerra. Qualquer homem que tenha estudado minimamente e consiga ter uma boa dicção vira um trunfo. E é um “pega pra capar” do cão, uma mordendo a orelha da outra e atacando, se matando pelo bofe. É a verdadeira luta no gel da mulherada. As mais "bonitas" e "bem nascidas" se arrumam logo. Arrumam logo um grande amor e tratam de fazer isso antes dos peitos caírem demais (na cabeça delas). As que não tiveram essa sorte, se esbofeteiam pelos médios e, mesmo casando mais tarde, conseguem um bom partido. E as outras, pamonhas que ainda não entenderam o jogo, terminam nas filas de espera das videntes que cobram $350 para dizer que sim, o homem dos seus sonhos está muito, muito próximo.

No final o que é isso senão um misto de machismo e carência? Legiões de mulheres com baixa autoestima e acreditando em um monte de bobagens do que uma mulher pode ou não ser (ou ter) para ser considerada a primeira opção de um macho. A lista é interminável e elas se esmeram em se encaixar em todas as categorias. Mas, pasmem, isso não garante nada. E, ao contrário do que pensamos, ser bonita e bem arrumada não garante que aquela mulher tenha uma boa autoestima. Geralmente é bem o contrário.

"O que um homem vê em uma mulher é a sensualidade não óbvia.

Para que uma mulher "precisa" de um vestido de dois mil reais para usar uma única vez em uma festa? Simples, para parecer melhor do que as outras. E, meu bem, se você acha mesmo que precisa de tudo isso pra se destacar e ser bonita, está mais encrencada do que pensa. O que um homem olha em uma mulher (e que me defendam os machos de plantão) não é a porcaria da fatura do cartão de crédito. É, sim, o conjunto da obra. Os pequenos detalhes que eles não percebem direito, não sabem o que é, mas que amam. A energia de uma mulher. A maneira como ela se move (com segurança, com elegância e boa postura), mesmo que o vestido tenha sido comprado em um brechó no centro da cidade e passe da oitava coleção passada.

O que um homem vê em uma mulher é a sensualidade não óbvia. Aquela que você precisa olhar de novo para perceber. Aquela que chama a atenção de um jeito especial. É, no final das contas, a sua energia e o quanto você realmente se ama.

Por isso, abandone a guerra. Fique em paz com você mesma. O amor chega para todo mundo, às vezes mais tarde, às vezes mais cedo. Às vezes é do jeito que sonhamos e às vezes não. Pare de fazer listas do homem perfeito geral e faça a sua. Sente-se com um pedaço de papel e seja honesta com você mesma no que quer em um homem. E coloque no topo da lista: Que me queira tão bem quanto eu me quero. É a única maneira de fazer com que ele te ame. Se amando, muito, primeiro.
 
 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.