por Mariana Montenegro Martins

Por que olhamos para o céu?

Olhamos para o céu a procura de vestígios de nós mesmos. A procura da vastidão do ser que somos lá no alto. Mapeamos o céu, com o auxílio de binóculos, telescópios, lunetas, computadores, a procura de pistas que nos levem de volta ao ser. Pois no fundo intuímos que não cabemos nas estreitezas do ego humano, nas máscaras mais superficiais, e nas formas meramente funcionais de existência. Sabemos lá dentro, onde se vê apenas com os olhos do coração e da consciência, que existe um astro de rara grandeza a ser descoberto dentro de cada um de nós.
 
Desse anseio irremediável de reconhecimento surgiu a astrologia. Da necessidade que o ser humano tem de se ver, e de entender o mundo que o cerca. O mapa astrológico é uma forma que o indivíduo encontrou para conhecer a si mesmo. Observamos no mapa uma soma de componentes, que relacionados entre si, também se relacionam com o indivíduo no mundo. Indivíduo que, consciente ou inconsciente, busca sua integração, e a totalidade do ser que ele é, mas que lhe falta reconhecer. Assim segue o navegante do espaço, feito planeta e estrela, errante e brilhante, e com uma tarefa intrasferível: retornar ao ser. 

Nossa busca de autoconhecimento ilimitada existe porque temos um anseio profundo de reconhecimento. Para isso procuramos sempre um espelho, querendo nos ver, seja através do outro, dos astros, de mestres, das obras. Mas é fundamental que esse espelho seja limpo, que ele reflita a nossa verdade interior. Toda a dor da alma humana surge quando não nos reconhecemos, quando ficamos fadados ao esquecimento e a ignorância. Essa é uma dor diferente da dor física ou da dor emocional, é uma dor mais profunda, que é da perda do sentido para a existência. Como se a vida fosse obra da aleatoriedade e do acaso.
 
O que é diferente de perceber que a vida faz sentido, que nada é por acaso, que as sincronias acontecem a todo o tempo. Perder o sentido é perder a alma, é o esquecimento daquele conhecimento essencial. Recordar, na origem da palavra, é a lembrança daquilo que passa pelo coração, que é a via do peregrino. Vendo através do coração, não olhamos apenas o mapa, mas conhecemos o território. O coração deve estar aceso feito chama e precisa ser cuidado, para que possamos ver com nitidez, sem ilusões, através de qualquer espelho, de qualquer mapa, de qualquer outro. 

Quando a referência é interna, quando ela está dentro de nós e não fora, não tem mais como nos perdermos. E se nos perdemos circunstancialmente, é só para novamente nos encontrarmos. Uma vez estruturados no ser, as referências são seguras, porque sempre poderemos perguntar dentro de nós, e sempre teremos a resposta mais adequada no momento. O mapa aponta o território, é um dedo indicando a luz, mas o verdadeiro autoconhecimento, o reconhecimento que tanto almejamos, vem da luz das estrelas que existem no alto das nossas consciências. 

Mariana Montenegro Martins

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Escritora, terapeuta e educadora. Autora do livro Contos da Alma Peregrina.