por Andrea Pavlovitsch

Resgatando o passado

Fui ao cemitério ontem, coisa que eu nunca fiz, a não ser nos enterros mesmo. Fui visitar um túmulo, onde estão enterrados os membros da minha família. Meus dois avôs, minha tia, os irmãos do meu avô, meu bisavô que eu não conheci. Mas fui lá por um motivo: a minha avó paterna.

Eu e ela tínhamos uma relação muito especial. Ela sempre quis uma menininha, mas não pode porque teve problemas no parto do meu pai e não teve mais filhos. Quando eu nasci, representei todos os sonhos dela realizados.

Ela já era bem doente. No casamento dos meus pais ela até pediu para sentar numa cadeira, no altar, porque não aguentou ficar em pé. Depois daquilo veio uma artrose grave, que a fez perder os movimentos das pernas, além de outros problemas de saúde.

O que eu me lembro era dela sentada ou andando de muletas, já que recusava se sentar numa cadeira de rodas. Eu pegava tudo para ela, com prazer, sem reclamar. Passava os dias em sua casa, depois da escola. Ela, como boa portuguesa que era, me enchia de comida. Fazia batata frita, mesmo que mal conseguisse se encostar no fogão azul calcinha com aquelas duas asinhas, que tinha na cozinha. Me deixava beber vinho do garrafão (desculpe, mas eram os anos 80) e fazia gemada quase todo dia (eu não suporto olhar para ovo cru hoje, mas amava). Me dava uns troquinhos que eu usava para comprar uma barra grande de chocolate na Lojas Americanas do lado da casa dela e sempre me deixava ver os presentes de Natal que meus pais compravam antes e escondiam (confesso que no Natal eu já tinha brincado com todas as bonecas).

Mas não sei porque (ou sei, mas não vem ao caso), eu não vivi a falta dela. Eu tinha 14 anos quando um infarto fulminante a levou para o outro lado. Eu não ia mais em sua casa porque ela tinha uma depressão muito grave e, naquele momento, eu não era a adolescente mais feliz do mundo. Vê-la chorar de dor, pedindo que eu rezasse a Deus que a levasse era demais até para mim, ainda mais com 14 anos.

Quando ela morreu eu não consegui tocar seu corpo gelado no caixão, apesar dela estar bem, serena e só com um pequeno machucado no rosto por conta da queda. Acho que por isso eu achei que não poderia ficar triste. Sufoquei o sentimento por muitos anos, mesmo depois de entender que o amor que eu tinha por ela não tinha morrido de jeito nenhum. Eu nem sabia o que era amar, mas já tinha isso tão forte. Não soube aproveitar aquilo.

Ontem, eu decidi me redimir. Apesar de saber que ela não está lá, naquele cemitério, estar perto do que ela foi aqui na Terra me parecia o certo a fazer. Conversei com a foto amarelada como uma filha pede conselhos para a mãe. Contei isso tudo, pedi desculpas, levei um vaso de margaridas amarelas, que ela amava. Sentia que, naquele momento, eu estava fazendo as pazes com ela. Estava me redimindo de não conseguir denominar o que eu sentia na época. Sentia que, mesmo depois de 26 anos, o amor ainda era o mesmo e, como disse a minha irmã: “Ela ainda faz falta, mesmo depois de tanto tempo”. Quando o Natal se aproxima. Quando eu quero comer gemada. Quando preciso de um abraço e um conselho de avó.

A voz dela ainda ressoa nos meus ouvidos como se eu tivesse escutado ontem. As mãos tortas e frias, de uma pele fina e delicada, ainda me acariciam de noite, enquanto eu tento pegar no sono. Os olhos pequenos, iguais aos meus, me observam atentamente. Ela nunca foi embora de dentro de mim e saber que tenho esse pedaço dela é absolutamente delicioso. É como se toda a solidão fosse embora assim, do nada. É como se o abraço dela fosse uma constante, algo que é só ir lá e pegar.

Não posso tomar com ela uma xícara de café e nem comer a bengala de pão fresco, que nem se acha mais para comprar. Mas sempre que eu faço isso é nela que eu penso, e nesse resgate do que é realmente importante nas nossas vidas, quem amamos e o que fazemos com isso.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.