por Andrea Pavlovitsch

Seja sua própria mamãe

Aos 26 anos eu tive uma vontade louca de ter filhos. Queria, porque queria, de qualquer jeito. Mas não tinha emprego, estava na faculdade e não tinha namorado. Não deu certo. Depois a vontade passou e virou uma coisa “não, obrigada”. Mas depois de uma conversa com uma ginecologista, a coisa mudou de figura.

Estava com muitas dores (depois descobri que era ciático) e fui ao hospital. Como eles não sabiam o que era, me mandaram fazer todos os exames possíveis, incluindo um ultrassom. Fiz, não deu nada de errado, mas aí a médica resolveu fazer um comentário:
- Qual a sua idade?
- 38
- Tem filhos?
- Não.
- Olha, seus óvulos estão perfeitos, parecem de uma menina. A hora que você quiser pode ter filhos. Não tem nada de mais você ter 38 anos.

Quem é mulher sabe, isso mexe com a gente. A gente até pode querer e optar por não ter filhos, mas saber que, aos 38 anos, ainda estamos férteis como um coelho é maravilhoso. Respondi com um “É a genética da família” e fui para casa, pensando naquilo.

E se eu mudasse de ideia? E se eu tivesse um filho? “Ah, dá muito trabalho”, pensei. “Vou ter que abrir mão de muitas coisas, coisas que eu ainda não fiz na vida. Não viajei muito, não fui entrevistada pelo Jô Soares e nem ganhei o prêmio Pulitzer. Não deve ser para mim”. Só que essa discussão me levou a outras, dentro da minha cabeça.

Comecei a pensar que, se quiser ser mesmo mãe um dia, vou precisar mudar algumas coisas. Primeiro, as minhas prioridades. Preciso manter a saúde em dia, afinal de contas, tirando certa independência financeira, não estou em uma situação muito diferente dos 26 anos de idade. Mas precisarei me cuidar melhor. Cuidar da minha alimentação, fazer exercícios e… Espera aí! Isso não seria uma coisa que eu deveria fazer de qualquer maneira? Para um dia ter filhos, ou não? Ah, entendi. Antes da gente querer ser mãe, precisa aprender a ser mãe de si mesma.

E por mãe de si mesma entenda cuidar-se bem. Ter muito carinho com você mesma. Não só em cuidados físicos mas, e principalmente, os psicológicos. Precisa se amar muito. Precisa se entender e não acabar com você mesma cada vez que comete um erro. Nada de castigos, de dar uns tapas na própria cara. Nada de se subjulgar, nada de fazer aquelas coisas que não iríamos querer para um filho amado.

Eu ainda não tomei a decisão final: filhos sim ou não? Sim, eu mudo de ideia, eu posso. Mas a decisão de ser a minha própria mãe, essa estava mais do que na hora de ser tomada. Assim, com direito a avental novo cor-de-rosa, colher de pau e muito amor pela pessoa que, no momento, ocupa todos os meus pensamentos: eu mesma. Depois isso pode mudar, mas o importante é que eu saberei cuidar de uma criança se souber cuidar de mim. E seremos, os dois, felizes para sempre. Ou só eu. Quem sabe?

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.