por Leandro José Severgnini

Sobre a Devoção

Para quem está buscando o caminho da luz, faz-se necessário a contínua racionalização sobre os aspectos que envolvem a evolução para expansão da compreensão. A discussão e a troca de ideias favorecem esse processo. Às vezes, alguns assuntos demandam maior esforço de nossa parte para podermos chegar a uma conclusão satisfatória. Parece-me que os assuntos "devoção e fé" tratam-se de paradigmas que ainda não atingiram um elevado esclarecimento. E com o intuito de ajudar, eu gostaria de trazer a minha humilde reflexão sobre o assunto. 

Cada ser tem um conceito próprio e uma maneira muito particular de praticar a sua devoção. Conforme vemos frequentemente, a ideia mais aceita é que a devoção seja "a projeção de um sentimento". E quando nos referimos a "projetar um sentimento", podemos não ter a consciência disso, mas estamos nos referindo à projeção a um ente externo, algo que não esteja em nós. É natural que ainda estejamos alimentando essa ideia, pois faz parte do processo de “culturização” que herdamos do catolicismo. Porém, peço permissão aos amigos para discordar deste conceito. Hoje, entendo que a devoção não se trata apenas de um sentimento que possamos ativar no momento das preces, como se fosse um "interruptor" que pudéssemos ativar e desativar a nosso bel-prazer. Para mim, a devoção é muito mais que um mero sentimento, para mim a devoção é um "estado de consciência", algo que vai se consolidando com o nosso esforço no autoconhecimento e no desenvolvimento de nossas potencialidades divinas. 

É uma confusão conceitual muito parecida com a questão do amor. Perdoe-me quem não concorda, mas creio que a exemplo da devoção, o amor não seja um sentimento, mas um estado de consciência. Por isso, entendo que quando usamos a expressão "amor incondicional" estamos caindo em uma redundância, pois o amor só pode ser incondicional, se houver condições não é amor. 

Temos ao longo da história muitos exemplos de como deve ser o amor. Jesus foi o grande exemplo de amor e devoção incondicionais. Então, pudemos perceber que o amor e a devoção de Jesus não eram meros sentimentos, mas era uma realidade permanente em sua própria consciência que foi cristalizada ao longo de sua evolução. 

Então como chegamos até lá? Creio que estamos a caminho e que este caminho é um caminho de "retorno", ou seja, de retornarmos para o nosso próprio EU. Este tempo todo, estivemos andando para fora, buscando a salvação e a redenção fora de nós, por isso agora é o momento de retornarmos para dentro. Esse tempo todo estivemos nos desligando da nossa essência para "devocionar" a um Deus externo, a Jesus e a Nossa Senhora e, ironicamente, acabamos esquecendo que eles chegaram aonde chegaram, exatamente por serem devotos ao seu próprio EU, à sua natureza divina, ao Deus que reside DENTRO e não fora. 

Portanto, julgo notável que estejamos cada vez mais atentos ao desenvolvimento do nosso SER, eis o que eu considero a verdadeira devoção. Sob esse aspecto, perceberemos que não existe uma oração melhor que a outra, tampouco mantras que sejam mais compreensíveis aos mentores celestiais por serem proferidos num ou noutro idioma. A questão é o desenvolvimento do nosso EU rumo ao amor, à consciência e à autodevoção. Logo, qualquer oração proferida com consciência está correta, ao passo que qualquer oração proferida sem consciência não produzirá os efeitos desejados. O diferencial não está na forma, mas na essência.

Mas caros colegas, repito, é apenas a minha humilde opinião. Espero ter ajudado.  

Leandro José Severgnini

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Palestrante e escritor. Autor dos livros intitulados Dias de Luta, Dias de Glória e Liberdade - Nada Menos Que Tudo.