por Daiana Barasa

Um brinde à dor

Acredito que se todo ser humano parasse por um momento para recordar de situações desfavoráveis que lhe causaram sofrimento, a sensação de agradecimento pelo momento presente, ainda que não seja o momento dos sonhos, fluiria naturalmente.

Lembro das inúmeras vezes em que sofri situações inesperadas que me fizeram sangrar, lembro das lágrimas que já escoaram dos meus olhos, lembro até do cansaço e da pergunta que nunca cala em um momento de sofrimento: “Quando tudo isso vai passar?”.

Lembro de conversas sem respostas com meu saudoso cão de estimação e dos seus olhinhos compassivos quase a me dizer: “O que você tem?”.

Consigo ouvir o som de soluço que foi trilha sonora de momentos que parecem distantes, mas que na verdade ainda estão tão próximos que me fazem aquietar e refletir. Sabe aquele momento em que você lembra de algo que lhe fez sofrer e suspira?

Uma hora a dor passa. Essa é a resposta positiva.

Minha vida não está do jeito que eu gostaria que ela estivesse, mas as perguntas que me faço muitas vezes sem respostas são: “Como é mesmo que ela deve ser? Eu sei? Há uma fórmula?”. 

Já passei por tantas trilhas acreditando que me levariam a algum caminho, já me enchi com tantas esperanças contra a realidade que me diz claramente para jamais esperar. Já entreguei meu coração à pessoas que nem sei se hoje sabem que tudo que entreguei foi meu coração.

Recentemente me escondi em meio a livros e diante da obra “Angústia”, de Graciliano Ramos, chorei, não pelo teor, confesso, nunca li, mas a palavra em si produziu em minha alma uma sensação de que algo precisava “sarar”, chorei entre aqueles livros, confundida com a poeira e quem sabe com outras lágrimas, saí e ninguém poderia perceber que a angústia vagava.

Aprendi a considerar a dor com gratidão, parece loucura, mas aprendi a olhar para ela ao menos com respeito, porque se hoje posso me recordar de momentos tão dolorosos e sombrios e se posso sentir o quão melhor me sinto, é porque essa dor é capaz de despertar para os momentos de tranquilidade também.  

Acredito que a dor é um estado indefinível, sim, não há “ais” que a exprima, não há palavras por mais bem construídas que a componha, a dor é o sentir, é o invisível, é o que se for gritado não pode ser ouvido, é o que faz querer se desfazer em pedaços com um sinônimo como “Angústia”, a dor é um estado que pode ser vivido entre risos, com amigos, em danças, em festas, em embriaguez...

E diferente do que se pensa quando ela está presente, ela passa, uma hora ela sai e dá ao corpo o necessário descanso, mas a lembrança sempre a fará ressuscitar em algum momento.

A dor não é inimiga, pode auxiliar na evolução, pode amadurecer, pode até mesmo ajudar a cicatrizar feridas profundas, mas é importante que se compreenda que a existência deste estado de espírito é essencial para ser feliz, para que se prove a tal da felicidade, ainda que em cálices. Acredite, a felicidade existe, se recorde dos seus momentos de dor e considerará isso.

Daiana Barasa

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