por Andrea Pavlovitsch

Vício x Prazer

Ainda estou para ver uma coisa mais difícil de combater do que um vício. Em qualquer coisa. Até nas coisas que nós não achamos que são nossos vícios. Drogas, álcool, relacionamentos, padrões repetitivos, comida, refrigerante, chocolate, pessoas. Cada uma destas coisas nos serve para algo: para preencher um vazio que não sabemos como completar. Eu me pergunto muito qual é este vazio? De onde ele vem? E porque parece tão impossível de estar 100% cheio, 100% do tempo? Parece um longo e distante buraco negro que, vez ou outra, nos desespera.

Sim, ficar sem o vício nos desespera. E como sabemos a diferença entre um vício e um prazer? Prazer é quando é bom. É você chegar em casa e encontrar o seu bolo favorito saindo quentinho do forno, e você morrendo de fome. Prazer é ver aquela pessoa que você ama, super bem (bonita, mais magra ou mais cheinha, mais rica) e sentir um amor incondicional e feliz por ela. Prazer é um sexo de qualidade, onde você só não goza fisicamente, mas compartilha algo superior e maior com aquela pessoa. Isso tudo é prazer.

Vicio não. Vício deixou de ser prazer e virou alívio. É quando sua cabeça está tão cheia que você quer comer alguma coisa que nem sabe o que é. É quando você chega em casa e vai direto para o bar porque está começando a sentir uma angústia desesperadora. É quando parece que você vai ter um ataque de pânico só de pensar em ficar sem aquela pessoa na sua vida ou nos seus pensamentos. Isso, meu amigo, virou vício e não prazer. E como confundimos as coisas. Compramos gato por lebre e só nos damos conta quando não sabemos mais como é mesmo viver sem?

Tem gente que é viciada em celular, sabia? Parece que passa o tempo todo ouvindo ele tocar, mesmo sem a menor perspectiva de uma ligação importante. Tem gente que é viciada em gente. Não consegue ficar sozinha nem por dois minutos ou pior, é viciada numa pessoa em particular. E só de pensar em viver sem ela é como se fosse mesmo morrer.

O meu caso é clássico: vício em comida. Percebi que a comida para mim é uma válvula de escape daqueles problemas mais cabeludos que eu ainda não tenho maturidade ou vontade de resolver. Quando eles ficam grandes e eu preciso me deparar frente a frente, eu fujo para ela com a velocidade da luz, e nem percebo o que estou fazendo. Depois, aliviada e de barriguinha cheia de porcarias, eu paro para pensar e a culpa vem. Sim, o vício sempre vem acompanhado de culpa. Uma culpa imensa que você fica depois de praticá-lo. E é uma dor e um peso que superam a própria necessidade do vício.

E vocês devem estar me perguntando, então o que fazer? Posso dizer que estou em processo de desintoxicação e sei que não é fácil. Por que quando você tira o vício, o buraco aparece inteiro e sem amalgama nenhuma na sua frente.

E a dor pode ser tão insuportável que você quase pira e não sabe mais o que fazer com ela. Eu tenho arrumado um novo vício, em detrimento do meu vício nocivo: dançar. Quando tenho um ataque de ansiedade por comida eu ligo uma música do George Michel (Freedom, para ser bem mais especifica) e saio dançando pelo quarto. É ótimo porque o buraco vai diminuindo aos poucos até que você se sente preenchida de novo.

Essa é a solução real: preencher os nossos buracos. Nossos buracos de autoestima, de autoconfiança. Preencher nossa falta de amor próprio, nossas inseguranças, nossas deficiências em perdoar o outro, nossas críticas a nós mesmos. Não deixar que estes demônios povoem a nossa mente. Nossa mente, mente. Mente para nós o tempo todo e nos faz acreditar que sempre precisamos de alguma coisa que está fora de nós mesmos. No fundo, só precisamos estar tão centrados e tão bem conosco que não precisamos de nada para buraco nenhum.

Talvez eu passe a vida em abstinência. Com altos e baixos, recaídas e períodos de melhora. Mas é melhor do que se entregar ao vício e não sentir a própria força de ser a prefeita de vocêlandia. Ditando quais são as regras e as normas que você quer seguir na sua vida. Assumindo o seu controle e não deixando que a comida, que o outro, que uma bengala qualquer tire você do seu melhor. Não é tarefa fácil, é para poucos! Mas pode ter certeza de que ter isso na nossa vida vale demais a pena!

Orai e vigiai, minha frase de vida, novamente.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.