por Andrea Pavlovitsch

A fé move montanhas

Um grande sábio e mestre falou esta frase há muitos, muitos anos atrás. O que ele não sabia, ou até talvez soubesse, é que todos estes anos depois, o homem continua com o mesmo problema: a falta de fé.

Eu atendo pessoas o tempo todo. E o que mais vejo é como todo mundo tem pouca fé nas coisas, nas pessoas, em Deus, no Universo, no invisível. Hoje mesmo vi um colega tendo uma síncope quando uma pessoa apareceu para alugar um salãozinho que ele tem. A pessoa veio munida de todos os seus documentos, fotos, registros em cartório e os documentos da franquia que pretende abrir. Meu colega chegou a ser rude com ele, pedindo toda a documentação. Olhou feio, fez pouco caso, como se aquele fosse um assassino em série querendo abrir uma loja de cama/mesa e banho. Começou a viajar no acontecimento. Pensou tanto, tanto e em tantas fantasias que se viu, lá pelas tantas, tentando descobrir uma maneira de conseguir um mandato de busca e apreensão dos seus bens. Na cabeça dele, toda a história estava pronta: ele é uma pessoa de má índole que quer me prejudicar. O resto foram as fantasias, todos os filmes que ele viu, todos os livros que leu e toda a desconfiança no resto da humanidade que ele ainda carrega. Complicado!

Claro que não estou dizendo que devemos ser ingênuos e acreditar em todas as lorotas que nos contam. Claro que as nossas metas precisam respeitar os seus limites, assim como nós, humanos, estamos encarcerados no limite do nosso corpo, do nosso espaço, da nossa vida. Não existem santos e demônios. Existem sim, os dois arquétipos dentro de nós mesmos.

Pois bem, mas o que custa dar um voto de confiança para uma pessoa que está provando, por documentação, que é idônea? A falta de fé na humanidade. E, claro, a falta de fé na humanidade pode nos levar a todo feito de falta de fé. Em Deus, naquilo que queremos para o nosso futuro, na vida após a morte e, principalmente, que o Universo sempre está do nosso lado.

Não acreditamos mais. Queremos cada dia mais provas. Provas que podemos confiar no amor de alguém. Precisamos ouvir 120 vezes Eu te amo no mesmo dia para entender que, talvez, aquele cara realmente nos ame. Precisamos ver na balança que emagrecemos o suficiente. Precisamos caber no vestido PP, que prova que somos magras. Provas, procuramos provas e vestígios numa religião nova chamada ciência. A ciência, sim, acaba com a fé, quando nos faz perder a fé em si e procurar provas dentro da gente.

Precisamos nos provar o tempo todo. Relacionamos a nossa vida como uma lista bem definida (campo sentimental, intelectual, financeiro, profissional, etc..). Quanto maior a neurose, maior é a lista. E sim, precisamos ter tudo. E precisamos ter tudo bem. E o tempo todo. Até admitimos que podemos não nos sentir muito bem por, sei lá, cinco minutos ou dez, mas não mais do que isso. Não temos tempo de não sermos felizes. Precisamos ser felizes aqui, agora e sempre.

E nem sabemos que diabos é a tal da felicidade. Só imaginamos que quando a nossa lista estiver completa, aí sim, podemos pensar em ser felizes. Só que tem só um pequeno detalhe: a nossa lista é infinita. E cada vez que chegamos a um determinado ponto, percebermos que temos que avançar duas casas no jogo da vida ou ficaremos para trás. Comparamos-nos com todos ao nosso redor. Olhamos as idades das atrizes de TV, mesmo que a maioria esteja dizendo uma baita mentira, e pensamos em nós com aquela idade. Quando eu tiver 60 quero ser como a Angela Vieira. Pois é, só nos esquecemos que nós não somos a Angela Vieira, nem vegetarianas, nem fazemos 300 abdominais por dia, e não estamos nem aí mandando ver no churrascão de domingo. Queremos um sonho de pessoa que não somos. Aí, de noite, nos sentamos e rezamos a Deus que nos ajude a ficar magra, a ser saudável, a ter boas ideias, bons filhos, excelentes casamentos e muito dinheiro no banco. Tudo isso com a barriga empanturrada de macarrão, sem fazer uma caminhada até a padaria há dois anos e depois de uma pequena farra de compras no shopping, porque a gente merece.

E ainda me vem falar que Deus não atende aos seus pedidos?

Deus, ou o Universo, como eu gosto de chamar, é uma energia que sempre, sempre, sempre está do nosso lado. Se Ele nos vê relaxada, gastando à vontade e depois ficando culpadas, Ele nos dá culpa e mais dívidas. Se Ele nos vê procurando o cara mais canalha do bar para se interessar, Ele arruma um pior do que o outro. Ele só faz o que você faz e não o que você pede. Pedir não adianta de nada. Ao invés de pedir, faça. Faça a sua parte e só depois espere pelo resultado. Aí sim, você poderá falar que o Universo não está colaborando e tem alguma coisa errada. Mas, do contrário, não acontece isso.

Outro dia mesmo eu queria uma vaga em frente a um banco que só tem uma única vaguinha na porta. Fechei os olhos e pensei numa situação ideal. Claro, fui numa boa, sem pressa e sem estresse, porque simplesmente sabia e confiava. Quando eu cheguei, o carro parado na vaga estava saindo. Perdi a conta das vezes em que isso aconteceu comigo. E as vezes que isso aconteceu com outras pessoas que também passaram a acreditar nisso. Isso é a verdadeira fé. Não é ficar com o joelho esfolado na igreja, mas sim, sentir Deus no fundo do seu coração. Sentir que você é uma energia maior e perfeita. E que é até uma sacanagem você se achar imperfeito, já que 90% do seu material é divino. Você é a representação de Deus, é onde Ele se manifesta. Ele não pode trocar um sapato na loja sem você. Ele não pode decorar a sala sem você. Ele não pode ajudar um cão faminto sem você. Você é um porta-voz de Deus. Você é alguém para o qual Ele passou uma procuração de viver todas as experiências da vida. As boas e as ruins. As que causam conforto e as que doem os seus pés e o seu coração. O resto é um monte de besteira que colocamos na cabeça e que o nosso diabo (interno) teima em nos dizer. E é isso que Jesus, Maomé, Buda, Osho, todo mundo quis dizer até hoje. Simplesmente seja Deus. Acorde Deus e durma Deus. Viva Deus e morra Deus. Ninguém no planeta é menos do que isso.

Acorde para o seu Deus interior e entenda que a sua fé pode, sim, mover as montanhas.
 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.