por Hellen Reis Mourao

A Imperatriz do Tarot nos contos de fadas

O arcano III do Tarot, conhecido como A Imperatriz, fala da feminilidade e sabedoria terrena. É a mulher no comando, a Rainha, a Madona, a Grande Mãe Terra. Ela une em si todas as Rainhas do Tarot: a de Paus, Copas, Ouro e Espada. Ela une Mago e Papisa em si, pois é a soma do I e do II. Então, vemos nela a astúcia e ação do Mago, com a intuição e conhecimento da Papisa.

“Podemos dizer que a varinha mágica do Mago tocou as profundezas da Papisa e, dessa união, através da mediação da Imperatriz, algo novo passou a existir.” (NICHOLS, 2007).

Ela coloca intuição na prática. É amorosa, fecunda, terna, compassiva, nutridora, mas enérgica, ágil e dominadora.

“O cetro de ouro da Imperatriz no tarô de Marselha, ostenta o orbe da realidade terrena encimado pela cruz do espírito. Essa capacidade de ligar o céu à Terra, o espírito à carne é, com efeito, um dos principais atributos da Imperatriz, ainda mais evidenciado pelo modo com que o seu trono lembra um par de asas de ouro.” (NICHOLS, 2007).

Ela é a fertilidade, a sabedoria da natureza, da alegria dos prazeres do corpo. E com o escudo protege com amor maternal.

Enquanto a Papisa mantém os braços em posição fechada, protegendo os segredos do corpo, a Imperatriz mantém os braços abertos, indicando uma natureza mais sociável e generosa. Ela não esconde os cabelos, ela os deixa cair livremente.

Ela dispensa alimentos tanto material, quanto espiritual aos súditos. Ela sai do ambiente confinado entre duas pilastras da Papisa e se embrenha em espaço aberto próximo da natureza. Enquanto a Papisa segura o livro da profecia e a Imperatriz representa e realiza a profecia. O livro já não é necessário.

No Tarot Mitológico está associada à Demeter, a grande deusa da vegetação e dos mistérios Elêusis. E o contato com a natureza fica mais evidente nesse Tarot, uma vez que ela é representada grávida, em meio a natureza, mostrando assim seu caráter de fertilidade, realização e prosperidade.

Na Mitologia Grega, Demeter é a deusa que representa os processos de maternidade e geração de vida e de alimento. Senhora da agricultura, do trigo, da terra cultivada, das colheitas e das estações do ano.

O caminho da Imperatriz nos auxilia no contato com o corpo, como símbolo do receptáculo de algo sagrado: a alma. É a conscientização de sermos parte da natureza e de estarmos ligados à vida natural. E a apreciação em todos os sentidos dos prazeres simples da vida cotidiana.

A Imperatriz é o arquétipo da mãe boa interna. Aquele aspecto interno que permite que sejamos a nossa própria mãe. Ela permite também que acessemos a nossa criatividade interna, ou seja, o nosso lado artístico.

Do lado negativo desse trunfo, temos a privação, a falta de calor e contato humano. A impossibilidade de gerar qualquer coisa na vida e de dar frutos, A impaciência e o não saber esperar com tranquilidade até o momento em que as coisas estejam maduras, para então ter condições de agir.

"A Fada Madrinha é o espírito da boa mãe que existe em cada um de nós, que leva a ação."

Nos contos de fadas encontramos essa Grande Mãe natureza, destituída do caráter de deusa, mas não menos poderosa e generosa.

Em “Cinderela”, temos um exemplar de Imperatriz na figura da Fada Madrinha. Neste conto a mocinha não tem um pai presente, ele se ausenta e é fraco. Mas é essa ausência paterna que inicia a ação, que culmina em abuso e vitimização, até o encontro com o príncipe (o masculino que retorna transformado). Mas para ela se encontrar com essa energia masculina dentro dela, ela precisa agir e confiar.

Enquanto fica na espera, ela age como a Papisa, intuindo o que pode fazer. Até que aparece essa mãe boa, a Fada Madrinha, com sua mágica e força feminina, e coloca a vida de Cinderela em movimento.

A evolução da consciência feminina se espelha neste conto, que sai de um estado de Papisa para Imperatriz, quando ela se casa e assume seu reino, sua função e passa a se movimentar com o auxílio desse masculino interior. Cinderela aguarda com paciência, e assim consegue ser agraciada com a prosperidade e abundância advindas da sabedoria feminina.

À espera de uma gravidez e à espera da colheita é a sabedoria da Imperatriz para que criemos nova vida.

A fada permite que Cinderela se torne bela e atraente, e esses são atributos da Imperatriz. A beleza, a atração, a autoestima. Quando esse arquétipo constela em nós, queremos nos arrumar, enfeitar, começamos a ver beleza em nós, nas coisas e nas pessoas.

A Fada Madrinha como representante da Imperatriz, Madona, Grande Mãe terra, é o espírito da boa mãe que existe em cada um de nós, que leva a ação. Não à ação masculina, mas para a ação combinada com intuição, com espera paciente e perspicácia de saber agir no momento certo. Ela é a energia de criação, que sabe a hora de trazer renovação em nossas vidas.

Nos filmes, ela apresenta a varinha mágica que encontramos no Mago, unindo como a Imperatriz as duas energias: intuição feminina e magia masculina. Por isso a fada é capaz de movimentar a vida de Cinderela e levá-la ao conhecimento prático da vida e não apenas teórico. 

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.