por Andrea Pavlovitsch

A verdadeira intimidade

A verdadeira intimidade não está no sexo, não está em ver a pessoa nua ou perceber o que ela gosta na cama, mesmo que ela goste de coisas diferentes e te conte isso. Isso não é intimidade. A verdadeira intimidade não é ver a pessoa ir ao banheiro, fazer o número 1 ou 2 na sua frente. Isso não é intimidade (e, particularmente, acho bem desnecessário). Intimidade não é saber de todas as histórias podres do outro. Não é saber que ele já pegou um estádio de futebol ou já fez ménage. Isso ainda não é intimidade.

Mas se intimidade não é nada disso, o que é então?

As pessoas têm um medo tão grande dela, que nem sabem o que é. E é mesmo bem difícil de entender e de explicar. Eu entendi isso muito tarde na vida, tarde o suficiente para ter perdido meia dúzia de bons amores. Eu também tive medo, muito medo, porque intimidade é, resumidamente, deixar o outro te ver por inteiro.

E não adianta só você deixar. É preciso que o outro realmente queira. Se ele estiver iludido por uma fantasia sobre quem você é, as coisas ficam bem complicadas. Vendemos uma ideia do que somos, porque somos ensinados que só seremos amados se formos perfeitos ou, pelo menos, algo bem próximo disso. Nunca ouvi uma mãe dizer ao seu filho: “eu te amo porque você é você”. Normalmente, elas dizem mais ameaças.

A criança tem que ser comportada, limpa, não fazer bagunça e ir bem na escola para ser amada. Algumas crianças compram o pacote (foi o meu caso), outras se revoltam e fazem tudo ao contrário, querendo ver até onde o amor dos pais vai. Nos dois casos há mentira, porque o amor não é isso.

Então, quando conhecemos uma pessoa que mexe com a gente, vestimos uma máscara pesada e suja. Colocamos ali o nosso melhor, sim, é normal, mas também tratamos de jogar a sujeira para baixo do tapete. Claro que isso é bom nos primeiros encontros, até que algum vínculo se forme, mas depois disso tudo perde a utilidade.

Mas o medo da intimidade, de se mostrar como é e de ser aceito por isso é maior. Então, quando deveríamos começar a mostrar nossas verdades, tratamos de esconder. Assim, não deixamos, de fato, o outro entrar no nosso mundo. Em seguida, passamos a lançar mão de estratagemas, de jogos neuróticos e absolutamente inúteis. Copiamos padrões que não são nossos de verdade, tudo porque achamos que o outro jamais vai amar em nós aquilo que é tão feio.

Somos mentirosos com o outro e, principalmente, conosco. Fazemos questão de achar que a culpa não é nossa.

Não é culpa, é responsabilidade, é saber que você pode ser amado só por ser você, que o outro pode ver todos os seus defeitos mais sórdidos e, ainda assim, te amar, que você poderia estar preso por assassinato, mas, ainda assim, as pessoas amariam e se preocupariam com você.

Intimidade é quando temos autoestima suficiente para aceitar o verdadeiro amor do outro. É quando paramos de nos preocupar em parecer e começamos a realmente ser, com todos os problemas reais e imaginários que temos. Quando a pessoa que amamos e que nos ama aceita tudo isso, é como receber uma benção, um prêmio.

Vamos parar de controlar. Vamos somente ser. Não é ter nada, é ser! E precisamos também perceber o quanto o amor flui melhor quando vivemos de coração aberto. Precisamos de intimidade com outros seres humanos. Precisamos saber que somos amados sendo aquilo que somos de verdade.

Andrea Pavlovitsch

+ artigos

Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.