por Camila Caproni

Acasos

Olá.

Hoje fui até aquele café que costumávamos ir em dias frios. Sabe, não mudou muita coisa... O Seu Antônio, aquele que sempre nos atendia, infelizmente faleceu há mais ou menos um mês.  O novo garçom (Amélio, se não me engano) disse que foi infarto, uma morte inesperada.
 
Sim, estamos na primavera, mas acho que o velho Cappuccino com canela e chantilly cai bem em qualquer estação.
 
Sentada naquela mesa ao lado da janela, comecei a refletir como nos distanciamos (e o quanto aquele Cappuccino era bom!). Minha vida estava um inferno. Estava sendo engolida pela inesgotável rotina. A propósito, foi a primeira vez em que lembrei de nós como mais uma de tantas lembranças acumuladas em meus pensamentos.
 
Seu Amélio então interrompeu a minha viagem perguntando se gostaria de alguns pãezinhos de queijo que acabara da sair. Infelizmente havia almoçado há pouco, deixei para uma próxima.

Saindo de lá, fui abordada por um simpático homem alertando que meu cartão havia caído. Agradeci a gentileza e quando me virei para continuar seguindo, eis que ouvi:

 - Finalmente o Sol apareceu não?!

Educadamente, me virei novamente e concordei dizendo que já estava com saudades do Astro Rei. Ok, concordo com você que esse negócio de puxar conversa por meio do clima já está ultrapassado. Mas, precisava retribuir o favor do cartão.

Após algumas vagas palavras trocadas, fui surpreendida com mais uma gentileza:

- Quer uma ajuda?! – E apontou para algumas sacolas em minhas mãos.

Não, elas não estavam pesadas a ponto de precisar de ajuda, mas toda mulher, alguma vez na vida, cede às tentações feministas.
 
No caminho de casa, conversamos sobre tudo. Ah, não se preocupe, antes disso já tínhamos nos apresentado, mas que por motivos óbvios prefiro deixar o nome dele em sigilo. Disse a ele sobre como minha vida anda de ponta-cabeça, sobre meus planos futuros, minhas dores de cabeça quase diárias que eu tanto me queixava com você e claro, falei de você. 

Quando me dei conta estávamos parados em frente ao meu portão. Foi então que finalizei a conversa, me despedi e agradeci imensamente a gentileza. 

O que não sabia era que nossos horários, muitas vezes na semana coincidiam. E então as conversas foram ficando cada vez mais freqüentes,  as trocas de favores mais comuns, e em uma sexta-feira dessas qualquer estávamos em um restaurante. 

Foi quando, finalmente, ele começou a falar... dele.  Só aí me dei conta que nos últimos quatro meses, estava envolvida demais nos meus acontecimentos para que pudesse abrir espaço para novas histórias, novas rotinas, novos encontros. Preocupada demais com... você.
Então, lhe faço apenas um pedido: Não nos queiramos mal, apenas não nos queiramos mais. 

A vida nos separou, o encanto acabou. Hoje, sei que a vida continua e você deve saber que eu também tenho a minha vida. Não me deseje o mal, o seu amor está doente assim como o meu estava. E por isso, hoje lhe escrevo enquanto ele está cantando no banho e eu, deitada imaginando como a vida nos reserva surpresas inacreditáveis. Segue em frente, vá em busca do que realmente lhe trará felicidade.  A maturidade bateu em nossa porta, falta apenas você abri-la. 

Camila Caproni

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Aspirante a jornalista. Se perde e se encontra no mundo das palavras. Observadora do comportamento humano.
Apaixonada por cães e suas peculiaridades. Autocrítica nas horas vagas e fã de fotografias e chocolates Ferrero.