por Andrea Pavlovitsch

Anorexia nervosa e a pulsão de morte

Foi Freud quem falou, pela primeira vez, sobre a pulsão de morte. Em termos simplistas, é aquela parte de nós que está caminhando para a morte, para as doenças e para a depressão. Essa pulsão costuma ser bem menor do que o seu oposto, a pulsão de vida, que nos faz viver, ser felizes e procurar relacionamento e felicidade. Assim, no caso dessas duas pulsões estarem em desequilíbrio, e a de morte ser mais forte, temos uma tendência a doenças, depressão e até a própria morte. 

Vimos uma modelo, de 21 anos, morrer por conta de uma doença que é, infelizmente, cada vez mais comum na nossa sociedade: a anorexia nervosa. Essa doença é caracterizada por uma autoimagem depreciada sobre si mesmo. Assim, a pessoa se olha no espelho e vê uma feiura e uma deformação que não está lá, no espelho, e sim na sua própria mente. Passam a não se alimentar mais para poder, de alguma forma, manipular essa deformação e manter um controle aparente sobre a situação. Em casos extremos, como da modelo, pode levar a morte por deficiência de potássio, presente nos alimentos e tem papel fundamental no funcionamento vital dos órgãos, principalmente do coração.

Mas a pergunta que todos se fazem é: por quê? O que leva uma mulher linda, magra, totalmente dentro dos padrões sociais de beleza a se destruir por dentro e por fora? O que leva uma pessoa a ficar deprimida? O que leva uma pessoa a usar tanta droga e morrer por ela? Ou álcool, ou qualquer outra forma de autodestruição? Para nós, seres ditos normais parece absurdo que alguém atente contra a própria vida, contra si mesmo. Mas acontece todos os dias, o tempo todo e com pessoas que gostamos, admiramos.

De fato, por mais difícil que isso seja de ouvir, nós temos uma tendência para a morte. A tal pulsão de morte pode ficar tão forte, tão forte, que perdemos totalmente o controle sobre ela. Ela passa a ser o nosso objetivo inconsciente, a maneira como aprendemos, em determinado momento da nossa vida, a nos defender. Defender do mundo, da mágoa, da dor. Sentir dor não é uma coisa muito fácil e não é para qualquer um, apesar de todos, todos mesmo, serem obrigados a passar por ela em alguns momentos da vida. Porém para algumas pessoas o grau de resistência à dor é menor. É como se a pessoa fosse ainda mais sensível do que a maioria e não pudesse suportar níveis maiores de dor. Então, por mais estranho de pareça, a pessoa produz mais dor para se defender da dor.

Existe também o que chamamos de ganho secundário da doença, ou seja, aqueles mimos que só recebemos quando estamos doentes. São como as crianças, que ao menor sinal de desamor caem de febre e recebem quentinhas a atenção da mamãe e do Papai. Existem pessoas que precisam demais de atenção, talvez por não saberem dar atenção a elas mesmas. Precisam que as pessoas olhem para elas o tempo todo e o que mais faz alguém te olhar do que uma doença? De fato, a anorexia é a doença da vaidade e do narcisismo. Seja pela procura de um corpo perfeito seja pela procura de uma eterna e irrestrita atenção sobre si na forma de doença. E leva, sim, a morte, como tudo o que foge do nosso controle.

Assim, podemos enumerar um sem número de razões que levam uma pessoa a um estado anoréxico ou depressivo e eles nada têm a ver com a conta bancária gorda, o corpo magro, ou qualquer outra manifestação do ego. Ela tem a ver com a alma, com uma alma em sofrimento, em dor e que não sabe mais o que fazer para chamar a atenção.

Assim, não procure razões externas quando vir esses noticiários. E saiba, muito bem, cuidar de você. Você, cada um de nós, é pulsão de morte e pulsão de vida. Cabe a nós escolher o que nós fará pleno e feliz.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.