por Andrea Pavlovitsch

Beleza oculta - O tempo

O filme “Beleza oculta” fala de três abstrações: morte, amor e tempo. As três são obviamente interligadas, mas quero falar daquele que mais me chamou a atenção em um primeiro momento, o tempo.

A moça do filme trabalhou a vida toda e o relógio biológico não pode mais esperar. Ela não formou a sua família, porque teve outras prioridades e agora percebe que não pode mais ter filhos. Ela tenta uma fertilização, procura informações sobre isso e acaba auxiliando o “tempo”, exatamente o que faltava para ela. Mas, não era bem assim...

Uma das primeiras frases que o tempo diz é: “Você tem todo o tempo do mundo”. Ela não acredita muito, sai andando não querendo muito tocar no assunto, mas depois entende que sim, ela tem. Uma das últimas frases é: “Seus filhos não precisam sair de você. Precisam só passar por você”. Isso é o tempo!

Vivemos em um mundo que tenta preencher o nosso tempo. As pessoas têm pressa na fila do restaurante por quilo, ficam fincando a bandeja nas suas costas enquanto você briga internamente para pegar a salada e não o nhoque. É, o nhoque sempre ganha, também com essa mulher me cutucando com a bandeja.

No trânsito, buzinam se você demora mais de dois ou três segundos para sair com o carro. A tia pergunta se não está namorando, afinal de contas o seu tempo está acabando (não tia, o seu está acabando, você é mais velha e está cheia de doenças). Não podemos demorar no chuveiro para economizar água. No terceiro encontro você já precisa saber se é namoro ou amizade e se está realmente amando alguém. E se a pessoa precisar de mais tempo, logo escuta: “Você acha que eu sou palhaça? ”.

A empresa vai dar lucro em um ano. O remédio vai te emagrecer em 10 dias. A dieta vai funcionar em uma semana. As crianças crescem rápido, precisam entrar no inglês, alemão, kung fu e balé clássico. O cachorro, ah, esse não está mesmo nem aí...

Os animais vivem no tempo certo das coisas, no tempo deles. Pelo menos até serem contaminados pela loucura humana. A questão do tempo virou uma mania, gastamos o tempo fazendo coisas que não somos, para dar resultados que não queremos e mostrar para as pessoas que não conhecemos. Mostrar que somos completos e como a nossa vida deu certo. E tudo isso não passa de uma grande bobagem!

Sim, temos todo o tempo do mundo. Todo o tempo que nos foi dado do dia em que nascemos, até o dia de morrermos. E se a moça do filme realmente tivesse se preocupado consigo mesma e não em ser a mulher maravilha para o mundo, talvez nem trabalhasse tanto e tivesse a sua família. Ou talvez ela percebesse que, sim, era isso que ela queria e que talvez precise reinventar o que é uma família para ela.

Não interessa que tipo de vida você tenha escolhido, desde que seja o seu certo. Então, porque gastamos tanto tempo e energia sendo o que não somos? Fazendo o que não querermos? Isso sim, é desperdício de tempo.

E não, não é o clichê de termos que ter tudo ou família é o mais importante. Eu não tenho a menor ideia do que é realmente importante para você, mas nos pressionamos para resolver problemas que até tem solução, mas precisam de tempo. Nos esforçamos para fazer o certo e não para sermos felizes. Somos arrogantes, cheios de uma razão estúpida em cima daquilo que não importa.

O que te importa? O que você traz para dentro? O tempo está aí, para quem quiser usar da melhor maneira. Para sorver a vida, como um delicioso milk shake de chocolate. Sim, vão ter pedrinhas dentro, talvez. Vai ter um momento em que você só quer que o tempo passe rápido. Mas, na vida alguns momentos precisamos aprender a andar, outros a esperar. Em alguns momentos precisamos só ficar quietos e outros precisamos agir. Mas se não nos perguntamos mesmo, lá dentro, o que queremos, não saberemos a diferença e vamos sofrer muito.

Existem muitas maneiras de ter o que queremos. Basta perguntar lá dentro e escolher direito. 

Confira também: Parte 1 • Parte 2 • Parte 3 • Parte 4

Andrea Pavlovitsch

+ artigos

Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.