por Paulo Bregantin

Como Jesus agia na frente dos doutores

Se observar a leitura do capítulo 2 do Evangelho de Lucas, nos versos 39 a 52 teremos uma narrativa muito interessante e também rara, pois é uma das poucas citações onde é descrito Jesus de Nazaré como criança, como sabemos na Bíblia que é a principal fonte da vida e obra de Jesus, fala-se muito pouco sobre a sua infância e adolescência.

Bem, nesse texto o relato conta que a família de Jesus seguiu para Jerusalém para a festa chamada páscoa (verso 41).  Como era costume de todos que viviam nos arredores da Galiléia, Nazaré e outras cidades circunvizinhas. Eles ficaram na cidade por alguns dias até o fim dos dias de festa de Páscoa.

Terminaram os dias de festa e a família de Jesus foi embora e, não perceberam que Jesus tinha ficado, pois como eles foram em muitas pessoas, a sua mãe e o seu pai (Maria e José) não se deram conta que Jesus não estava com nenhum dos familiares e tinha ficado em Jerusalém – com fala o relato conversando no tempo com os doutores da lei. Depois de três dias, a mãe e o pai de Jesus se deram conta de que ele não estava entre os familiares, então eles regressaram para Jerusalém para saber se o menino estava por lá.

Bem, o fato é que no descritivo do texto dirá que Jesus estava no templo conversando com os doutores e, o mais interessante é a afirmação que o texto faz, o menino estava entre os doutores “ouvindo-os e os interrogando-os”. É sob esse prisma que queria fazer uma reflexão, pois verificamos aqui duas formas de entender a si mesmo e aos outros que estão ao nosso redor:

“Ouvindo-os” – Ouvir é uma capacidade fundamental para o ser humano e, que é derivado de ouvido, que anatomicamente estão colocados no ser humano um ouvido a direita e outro à esquerda e em posição de ouvir 360º ou ouvir o que se fala de frente e detrás. Claro, que não é sobre isso que eu desejo compartilhar com vocês, mas sim o fato de entender a palavra “ouvir” no contexto desse texto, ou seja, um menino simplesmente estaria ouvindo o que os doutores estavam falando, porém, ali podemos observar que o menino – chamado Jesus estava ESCUTANDO o que estava sendo falado pelos doutores do templo e, não somente utilizando a audição que lhe era perfeita. A capacidade de escutar é bem mais profunda do que ouvir, pois ouvir todos nós ouvimos, porém quando falamos em ESCUTAR a situação toma outro rumo. Jesus desde pequeno tinha a capacidade de ESCUTAR o que estava sendo falado.

Escutar é uma função cognitiva muito avançada, nem todos os seres humanos tem essa função desenvolvida, pois escutar é entender o que está sendo falado e interpretar de forma a poder indagar sobre o assunto descrito e desenvolvido pelas pessoas em alguma situação onde é preciso entender e debater. Então, podemos afirmar que Jesus ali, com os doutores, estava exercendo a função de escutar o que estava sendo dito pelos doutores, por isso, eles se espantaram com a sua sabedoria e conhecimento extraordinário. A função de escutar passa a ser muito importante em conversas onde o assunto é complexo e adverso, muitas vezes, ao entendimento simples.

Posso afirmar que Jesus escutava, pois, a segunda palavra que destacarei para esse nosso aprendizado é “Interrogando-os” – Interrogar é uma palavra muito interessante e que jamais vem sozinha, pois quem interroga tem que desenvolver a capacidade de Escutar, pois é através da escuta que a geração de interrogações é processada na nossa mente, ou seja, não conseguimos interrogar o que não entendemos ou somente interrogamos aquilo que escutamos. Claro que você pode estar se perguntando: Mas, a interrogação e a pergunta não são a mesma coisa? E, quem pergunta está com dúvida, logo não sabe sobre algo? Eu responderia essas duas perguntas assim: OK, desde que Jesus estivesse chegado àquela hora no templo e estivesse afim de perguntar algo sobre alguma situação de relevância para os doutores da lei e, creio que por ser uma criança os doutores nem lhe dariam atenção. Mas, a palavra interrogar tem mais sentido em uma conversa séria ou entre peritos no assunto. Logo, penso eu, a interrogação me leva a tentar entender que devo ficar a par do assunto que desejo interrogar e, então, a interrogação vem da capacidade de escutar, ou seja, entender sobre o assunto para iniciar uma discussão de aprendizado sobre algo.

Para interrogarmos é muito importante ouvir/escutar, creio que essas são as lições que podemos aprender nesse descritivo bíblico que está em Lucas 2: 39 a 52. Claro que poderíamos falar tantas outras coisas relevantes como a Sujeição de Jesus com a sua mãe, a capacidade da família em aceitar quem Ele era, as ações de Maria como mãe, o que Ele quis dizer sobre “negócios de meu Pai”, etc, porém, creio que se aprendermos a Escutar e interrogar com sabedoria algumas questões da vida, já teremos aprendido muito sobre nós mesmos e a atenção que devemos ter com os outros.

Paulo Bregantin

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Mais de 25 anos dedicado ao cuidado de pessoas, sendo Psicanalista Clínico e escritor com várias obras publicadas. Atua nas redes sociais como dono, gerenciando a página Paulo Bregantin e o Grupo Psicanálise Integrativa.

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