por Andrea Pavlovitsch

É o que temos pra hoje!

"Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter. Engenheiros do Havaí

Quando eu era criança, e até bem depois disso, eu queria ser arqueóloga. Também quis ser bailarina, atriz, modelo, estilista, escritora, advogada, arquiteta e até vender frango na feira. Queria ser alta e magra, de longos cabelos loiros e olhos azuis (influência direta do meu amor pela boneca Barbie). Queria um cachorro que não latisse muito, que fosse fofo e que soubesse fazer suas necessidades na privadinha. Queria duas melhores amigas, daquelas que você liga às quatro da manhã bêbada que elas ainda acham graça. Queria um amor, um grande amor, que me preenchesse todas as necessidades (emocionais, sexuais e financeiras) e ainda fosse lindo, sarado e alto (pra combinar com o Ken, namorado da Barbie). Queria muitas, muitas coisas impossíveis ou somente imaginadas.

Ao invés disso, lá pelos 18 anos me mandaram escolher uma profissão. Como assim escolher? Eu não posso ser tudo? Eu quero ser tudo, eu quero ver tudo, eu quero tudo. Já contei que sou pessoa de muito e é muito frustrante pra uma curiosa federada não poder ter acesso a tudo. Escolhi uma profissão primeiro. Depois escolhi outra e entendo perfeitamente os jovens que ficam em dúvida quanto à profissão. Com tantas opções fica realmente difícil. Aí eu entendi que não, não podemos ter tudo. Mas também entendi, no meu entendimento da época, que poderíamos, se nos esforçássemos muito, fazer duas ou três coisas. Que tal duas profissões, marido, uns dois filhos, academia (pra me manter magra e loira, lembra?), as tais amigas das quatro da manhã, mais a família, a minha e do marido, e os vizinhos e a reunião de condomínio? Ah, e os hoobys, que isso é muito importante pra não ter estresse: jardinagem, ponto cruz, fotografia, cinema, teatro e leitura. E eu fiz isso. Quase tudo. E sabe o que eu virei? Uma mulher cansada, que não conseguiu manter ou ter metade da lista, e com uma bela fibromialgia.

Fibromialgia é um tipo de reumatismo do músculo. Você sente dores o tempo todo, além do cansaço (fadiga crônica) e muita insônia. As coisas que você costumava fazer com facilidade se tornam fardos horrorosos. Cada dia é uma dor diferente e muito, muito forte. As pernas, braços, costas, pescoço. Ainda desenvolvi uma dor misofacial, uma dor no rosto que é muito forte e dá de vez em quando. O frio e o estresse pioram e tudo isso gera depressão. Sim, porque você sente dor o tempo todo e não consegue realizar nada, né?

Bom, aí lá fui eu pra terapia. E a primeira coisa que eu ouço é: o que você faz por você mesma? Ora, que pergunta mais estúpida! Tudo. Eu trabalho, eu cuido da minha família, dos meus relacionamentos, dos meus ami... no meio da frase eu parei e caiu a ficha: mas nada disso é realmente pra mim.

Eu achava que se estava fazendo por algo que estava na minha vida, necessariamente era por mim. Se eu estava fazendo pelo meu trabalho, então era eu. Mas o meu trabalho não sou eu, meus amigos não são eu, minha família não sou eu. Um pequeno erro de interpretação, de cognição, e estava tudo perdido. Estava lá eu doente, atolada de trabalho até os ossos, sem nenhum prazer e pensando “eu gostaria tanto de fazer uma massagem”. Fazemos isso. Fazemos por todo mundo e por tudo ao nosso redor, como eu, pensando que é pra mim. Adiamos aquilo que nos dá prazer, que nos faria bem. Uma massagem, um banho mais demorado, uma caminhada, um filme na TV estatelada no sofá. Isso tudo passou a ser um pecado. Como assim você vai tirar um dia pra descansar? Está louca? Com essa pia de louça e essa roupa pra lavar? Você só pode ser maluca.

E o pior é que a cobrança não vem de fora. Não tem ninguém lá fora falando que você é preguiçosa e sua vida está boa demais, isso vem de dentro. Vem das nossas amebas internas, da nossa própria culpa. De assistir a televisão e ver a Dona Mariazinha se ferrando no tanque pra criar oito crianças e pensamos “não posso ir pra massagem e ser feliz, olha lá a Dona Mariazinha”. Achamos lindo quando alguém se matou de trabalhar (literalmente, com um belo infarto) ou quando aquela mulher que sofreu 40 anos ganha uma casa do Gugu. Sentimos isso como uma recompensa, como se isso nos dissesse “viu, se acaba que a sua vez vai chegar”. Só se for a sua vez numa cama de hospital, sua vez na fila do SUS ou na UTI. Isso até pode ser. O resultado é uma pessoa cansada, exausta, que entrou no módulo automático pra poder cumprir todas as tarefas que ela acha que é obrigada.

Ai, e chega disso. Porque a fibromialgia veio e me mostrou que ou eu parava por bem ou por mal. Passei dias sem sair de casa, sem ver os amigos por causa dela. Dormi sentada na sala de espera de um consultório médico e quando entrei pra fazer o exame (um teste ergométrico) não consegui terminar. Estou revoltada de como eu pude cair na minha própria armadilha depois de tudo o que eu já aprendi.

Mas estou me acolhendo. Estou percebendo que a vida é uma escola e que algumas lições são mais difíceis do que outras. Que é legal fazer o que se gosta, mas, se está te estressando é porque está errado. Se estiver te deixando doente é porque é o caminho errado. E não quero nem saber de desculpas de “não tenho outra chance” porque sempre existem alternativas. Vale só você pensar o preço que você quer ou não pagar. E dá licença que eu tenho que ir pra academia!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.