por Hinaide Mikalkenas

Encerrando ciclos e exercitando nossa finitude

Estamos cansados de saber que assim como nós, tudo no mundo tem um ciclo que em resumo nasce, vive e morre. Mas, o que nos diferencia dos outros seres viventes é que temos consciência deste ciclo e é exatamente por este fato que não passamos por eles incólumes.

A compreensão acerca disso é fácil, difícil é vivenciarmos sem nos abalar com as consequências desta afirmação.

O nascimento de uma criança , a chegada de um novo amor, a mudança para a casa nova, o início de um trabalho ou de um curso, mesmo que nos gere uma certa apreensão e ansiedade, na maioria das vezes é motivo de alegria  e boas esperanças.

O crescimento deste ser, a consolidação do amor, a convivência com novos vizinhos e novos amigos também nos dá a sensação de estarmos vivos e sermos seres de transformação em crescimento e aprendizado.

Já na nossa mais tenra idade sabemos intuitivamente desta constante: a roupa que não nos serve mais porque crescemos, a despedida da chupeta para não sermos ridicularizados, a despedida da nossa primeira professora, pois ela não tem mais o que nos ensinar, a despedida da casa velha que ficou pequena para a família que cresceu e tantos outros momentos da nossa vida que dariam um livro de muitas páginas; mas, e quando estes fins não são mais apenas resultado das forças inerentes da natureza e do passar do tempo, mas,  resultado direto das nossas decisões? Aí sentimos o quanto somos formados por  limites. 

Sim, limites que nos fazem resolver os problemas até a nossa capacidade ou limites que nos mostram que as brigas ou a indiferença acenam o fim de uma relação. Sim, nossos limites nos incomodam, porque nos fazem entrar em contato com nossa finitude em todos os ciclos da vida e na própria vida.

Triste? Sim, se não conseguirmos entender que é exatamente a consciência deste fim e a convivência com nossos limites que nos dá a certeza que temos que achar uma fórmula para viver o mais feliz possível. Receita de Poliana? Não! odeio esta história desde que me contaram, e eu era muito pequena!  A felicidade é um exercício, não uma dádiva, não nos iludamos, ela não bate à porta, temos que ir atrás dela todos os dias antes de colocar nossos pés no chão. 

Mas, que bom que não somos  deuses  imortais  condenados a repetir sua estória, suas qualidades e defeitos por todo o sempre, presos na roda do tempo. Não, nós seres pensantes, limitados, finitos e cíclicos temos muita sorte: podemos recomeçar muitas vezes, de muitas formas diferentes.

Poderemos dizer que amamos o azul e pintar nossa casa toda de amarelo. Podemos amar Pedro e casar com Paulo. Poderemos errar, mas com certeza iremos acertar. E vamos ter uma única certeza: tanto o erro como o acerto não ficará conosco por muito tempo. Lembre-se, somos feitos de ciclos. Sendo assim, não nos apeguemos a nada, afinal , nada é nosso. Quando muito somos gerentes. Cumpre-nos gerenciar senão com muitas habilidades, afinal somos mestres na inabilidade, pelo menos com nosso cuidado e atenção, estas sim qualidades que só dependem da nossa boa vontade.

Cuidemos de cada ciclo como se fosse o último e o mais curto, e então tenha a certeza que estaremos sempre produzindo o  nosso melhor! Boa sorte!

Hinaide Mikalkenas

+ artigos

Advogada formada pela Universidade de São Paulo, administradora de empresas com MBA em Gestão de Negócios pela FMU e especialista em Direito Imobiliário.
Apesar de não ser o meu ramo, escrevi textos para periódicos e sou uma observadora incansável do ser humano, a matéria prima do meu trabalho.