por Andrea Pavlovitsch

Inverno

Inverno me deixa apática. Não tenho vontade de fazer muita coisa. Fico imaginando o momento em que estarei em casa, debaixo das minhas cobertas. A falta de sol me faz muito mal. Todos os dias tento roubar um pouquinho de sol de inverno, mas não faz muito efeito. Acabo adiando projetos, ficando em stand by como eu costumo dizer. Pareço aqueles aparelhos ligados, gastando energia, mas não transmitindo nada. Comecei a perceber que algumas pessoas sentem-se assim também no inverno. E, claro, fui pesquisar.

Trata-se de uma espécie de depressão sazonal (dependendo do nível) ou como o pessoal chama o blue winter. A tradução é a tristeza de inverno. Não é para menos que nos países onde o sol não dura muito, com invernos muitos rigorosos, a depressão o índice de suicídios é alarmante. O maior índice de suicídio do planeta é na Suíça, um país que supostamente teria que ser o paraíso na terra, já que em uma das maiores rendas per capita do mundo. Mas não é assim. O ser humano, nosso corpo, precisa de sol e de luz. É comprovado isso pela medicina.

O sol é responsável por boa parte da metabolização das nossas vitaminas. O sol também ajuda na produção da serotonina, um neurotransmissor que tem a função de nos fazer sentir prazer e bem estar no nosso dia a dia. Quando este neurotransmissor está baixo, abre-se a porta de entrada para a depressão e os males da alma, como diriam os antigos. Mas aí vem a velha pergunta: os neurotransmissores diminuem por conta do nosso estado ou ficamos assim pela falta deles? Na verdade, é uma estrada de mão dupla. Somos humanos, mas também animais. E se você analisar o que os animais fazem no inverno? Hibernam. 

Outro dia assistindo o desenho do Pica-pau (sim, eu assisto o Pica-pau de vez em quando) tive a nítida comprovação disso. O Pica-pau só cantou o verão todo e no inverno não tinha o que comer. Ele batia nas casas dos outros animais da floresta que lhe negava qualquer ajuda. Nenhum deles saía das tocas, todos com sua comida estocada, descansando e dormindo. Por que conosco não seria assim?

Acredito que a falta de luz e calor é que provoquem estas sensações ruins em mim. Mas algumas pessoas amam o frio e sentem-se melhores quando os dias estão mais congelantes e sem sol. Daí, eu não terei uma explicação. Talvez a descendência de algumas pessoas, distante e longínqua, sejam de pessoas acostumadas a climas muito frios. Não saberia dizer os motivos.

Do ponto de vista metafísico, acredito que pessoas mais sensíveis ao frio tenham mesmo tendências depressivas. Não estou dizendo que sejam ou que tenham depressão, mas tendem a serem pessoas que se magoam facilmente, que são sensíveis aos comentários dos outros e que gostam mais de analisar e pensar profundamente. Se já fazem isso naturalmente, imagine quando o clima ajuda.

As pessoas que se sentem melhores no frio têm uma energia interna maior. São mais extrovertidas e voltadas para o externo e o mental. Quando chega o verão estas funções ficam tão altas que causam desconforto. Pode ser por aí também. Para mim faz sentido. De qualquer maneira, às vezes precisamos do nosso stand by.

Precisamos ficar mais quietos e pensar nas coisas que queremos para a nossa vida. Não é errado se sentir assim (se não estiver doente). Não é errada a tristeza, não é errada a angústia. É sim, desconfortável, mas não é errado. Errado é pensar que alguma coisa está necessariamente errada. Precisamos de tudo: de sol, de chuva, de frio, de calor. Precisamos ser e estar no mundo para sentir as sensações que ele nos traz. O resto é com a gente.

Bom inverno a todos que estão mais para sul. Bom verão a todos que estão mais para o norte do Brasil e do mundo.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.