por Andrea Pavlovitsch

Medo da vida

Gosto muito de seriados, e assim um outro dia me identifiquei com uma frase. A mulher, com 46 anos, estava se separando pela terceira vez na vida, morrendo de medo de ficar só e todas aquelas coisas que passam pela nossa cabeça quando passamos por isso. Levou o marido para a terapia e lá, sentados na frente da terapeuta, descobrindo que não era justo viver uma relação ruim e esquecer toda a parte boa que tinha sido o casamento deles. Foram felizes, e a conclusão é: como é difícil terminar um ciclo que foi muito feliz nas nossas vidas.

Isso é o medo da vida, o medo de viver. Não temos medo de coisas ruins, só. Temos medo do desconhecido. Temos medo de não sabermos o que fazer com a gente mesmo depois que aquilo acabar. E por “aquilo” identifique qualquer coisa: um bom emprego, um casamento, uma amizade ou até um flerte do passado. Não largamos o osso, literalmente, pelo simples medo do que vem pela frente.

E Lulu Santos estava certo quando disse que “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. O romance da personagem até pode ter sido perfeito, mas terminou. Isso porque ciclos são para serem vividos e encerrados. Sim, também nos mantemos presos a coisas ruins, por não conhecermos coisas melhores ou porque achamos que podemos mudá-las. Ledo engano. Não mudamos as pessoas ou voltamos no tempo, pelo menos não no nosso plano de coisas e ideias.

Todo mundo que já terminou um relacionamento que já tinha sido feliz tem a sensação de que, um dia, o outro vai acordar pela manhã e lembrar do que quanto nos amou e de como somos perfeitos um para o outro. E o grande sofrimento da história reside justamente aí. Não podemos mudar o que passamos, mas podemos agradecer e ir embora. Aliás, isso é uma coisa que devemos fazer. 

Agradecer às lições ruins e amargas que tivemos. Agradecer às boas coisas. Agradecer as chances e as oportunidades de crescimento para não nos tornarmos fantasmas de nós mesmos. Contando sempre as mesmas histórias do passado. Revivendo coisas que já aconteceram. 

Eu tenho uma memória péssima e hoje eu vejo o quanto isso é bom. Apesar de ainda precisar de umas três agendas para dar conta de cada coisa que eu preciso fazer, eu não tenho apegos ao passado. Se passou, passou, e eu nem lembro mais. Meus amigos vivem me contando histórias ótimas que viveram comigo, que eu escuto e rio como se fosse a primeira vez. Viver no presente é isso. Viver sem medo é isso. Esperar que cada dia seja mais uma oportunidade, a tal da folha em branco para mudarmos o que precisamos e aceitarmos o que não podemos mudar. 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.