por Helyete Santos

O conflito das rugas

Enquanto janelas entreabertas denunciavam mulheres em choros e lamentos convulsivos, outras revelavam gargalhadas e risos abertos. Só mais à frente um silêncio se precipitava. Eram outras mulheres que, a seu modo, descobriam e localizavam, na inimiga, a algoz capaz de magoar todos os seus desejos, suas conquistas, seus momentos de felicidade eterna. Ela estava ali! E não era uma só. Era uma e mais uma que se amontoavam e gritavam “guerra” em frente ao espelho da sala de banho, como testemunha.
 
A da direita comandava as demais que surgiam já alvoroçadas, donas do terreno tido como jovem, sem preparo ainda para recebê-las e expulsá-las com força e veemência. Bem, o conflito estava debelado e, por mais que meu corpo se vestisse com roupas exuberantes e caras e os cremes e maquiagens tentassem escondê-las, elas já haviam assumido seu posto indesejável em meu rosto. Ainda a ideia de me esconder sob os óculos que eu havia comprado em Nova York pairou na minha mente, mas o fato não aconteceu, porque durante o dia eles me serviriam de esconderijo, mas à noite não poderia usá-los igualmente. E seria descoberta ainda de uma forma mais desconfortável e mentirosa.

Uma cirurgia plástica poderia removê-las, mas a denúncia do fato primeiro e desencadeante também foi declarada. Tive que admitir: a idade veio, se avolumou e eu não percebi, ou não quis perceber para não me magoar, não me entristecer e enfraquecer perante a sociedade que rotula mulheres como eu de “coroas, passadas e velhas”, que deveriam mais era se reunirem para jogar bingo no final da tarde e deixarem espaço para as que são jovens e podem mostrar e demostrar sua beleza à flor da pele. Admitir a verdade é muito difícil.
 
Muitas mulheres já haviam se queixado do mesmo fato, mas o momento das outras foi diferente. Os sulcos não estavam no meu rosto. Estavam no rosto delas. Foi assim que tive que me acostumar com a presença desses traços indesejáveis e fazer delas, as rugas, apenas riscos ousados, mas inconsequentes para a minha felicidade. Afinal, me ver no espelho já era um grande privilégio, depois de ter ficado por alguns meses sem conseguir me ver por inteiro, após um derrame visual. Então, para que me importar com tão pouco? As rugas? Não seria por causa delas que eu iria fugir de mim.

Façam sua guerra, rugas insanas! Briguem com a vida, porque comigo não obterão êxito em sua jornada. Continuarei a sonhar meus lindos sonhos de mulher que sabe amar e realizar evoluções sem queixas nem conflitos para com a vida.

Estes sonhos são a resposta precisa de que não envelheci e tão cedo sei que este fato não ocorrerá. A idade malvada, brusca, feia e sórdida, chamada de velhice, só acontecerá quando eu não souber mais sonhar.

Helyete Santos

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Sou paulistana. Atualmente, moro na cidade de Santos. Atuei como professora de Redação e tenho vários livros publicados sobre técnicas redacionais, como Pais e Filhos Entre Erros e Acertos Editora Edicon. Escrever traz à tona o modo sensível de se viver.