por Andrea Pavlovitsch

O Poder dos Sonhos

Antes eu sonhava, agora já não durmo... - Renato Russo Fui criada numa família prática. Todos os meus avôs são imigrantes, vieram da guerra e da fome tentar uma vida um pouco melhor no Brasil. Economizaram até o último dia de suas vidas e aprenderam que a vida é dura.

No caso, ainda mais dura do que em outras épocas. Criaram seus filhos assim, meus pais. Que me criaram assim. Práticos, corretos, retos e sem sonhos. Por muito tempo na minha vida, sonho era uma coisa que fazíamos à noite, enquanto dormíamos. Minha mãe, quando eu contava algum sonho-desejo para ela, erguia as mãos até a cabeça, fazendo aquele sinal de loucura e me mandava ir logo lavar o banheiro.

Cresci achando que sonhos eram coisas de lunáticos, de gente maluca. Mas alguma coisa dentro de mim insistia. E eu sofri por muitos anos achando que era só uma sonhadora. Achava que as coisas não davam certo por conta disso, eu sonhava demais! Sonhei em achar um príncipe encantado, sonhei em ter um trabalho que me desse uma renda. Com isso tudo, e uma criação repressora na cabeça, meus sonhos foram ficando cada vez menores.

Se antes eu sonhava com um marido bonito, bem sucedido e inteligente, agora se alguém me olhasse já estava bom. Se antes eu sonhava com um emprego bacana, com uma carreira que crescesse e me proporcionasse muito dinheiro e até algum poder, agora eu só queria alguma coisa, qualquer coisa, que pagasse as minhas contas. Comecei a ir pra entrevistas de emprego como se estivesse pedindo uma migalha para o entrevistador.

Acho que eles até poderiam ler na minha mente pelo amor de Deus, estou desesperada. Se antes eu queria um corpo bonito, bem torneado e saudável, agora eu me contentava em ficar em pé para dar conta da lista interminável de tarefas que eu me coloquei. Nesta, todo, mas todo o meu entusiasmo ia por água abaixo. E o que é o entusiasmo, a motivação, senão ter um sonho e ir atrás dele? Sim, mas ter para um sonho eu tive que limpar a cabeça de séculos de crenças negativas nos sonhos. Aprendi isso, pasmem, quando comecei a revender cosméticos.

Eu sempre amei cosméticos e maquiagem. E, trabalhando como eu já trabalho, eu nem poderia me meter a ter mais uma coisa para fazer. Mas mesmo assim me meti nessa e comecei a revender os produtos Mary Kay. Lá dentro eles têm uma coisa chamada plano de carreira.

Comecei a frequentar as reuniões, mesmo que, no momento, isso não seja o meu objetivo, para me sentir mais motivada com minhas vendas, com as aulas de maquiagem e tudo mais. Melhorou a minha autoestima, melhorou a maneira como eu vejo a beleza feminina, enfim, mas isso é assunto pra outro artigo. Mas lá eles falam muito sobre sonhos. E foi aí que eu me toquei que tinha parado de sonhar.

Quando ia às reuniões, e via aquelas mulheres falando de sonhos, de realizar coisas, é como se não fosse nada daquilo para mim. Achava que era um bando de malucas, querendo só estimular as pessoas a venderem mais seus produtos e tudo mais. Simplesmente a palavra sonho não entrava na minha cabeça. Aos poucos fui me permitindo entender o que eram os meus verdadeiros sonhos.

Um dia, me fiz uma pergunta: se eu pudesse ser ou ter qualquer coisa, independente de dinheiro, de influências ou de oportunidades, o que seria? E tudo veio na minha cabeça, saindo da minha alma, como se tivesse ficado aprisionado por anos. Todos aqueles desejos, que eu achava malucos, faziam um sentido incrível para mim.

Não, eu não falo de ganhar na Mega Sena e nem virar atriz da Globo (se bem que algumas pessoas querem isso mesmo), mas os meus sonhos, os sonhos que fazem sentido pra mim. Escrever e publicar meu livro, por exemplo. Coisas que, para muitas pessoas, são normais, mas para mim eram sonhos. E sonhos sempre ficaram lá, guardados na gaveta da alma. Claro, sonhos também precisam da parte prática.

Também precisamos estabelecer uma meta, objetivos claros, com datas precisa e ir atrás daquilo. Nunca sabemos se tudo sairá conforme o combinado, nem na data que estabelecemos, mas precisamos de um parâmetro para poder organizar os sonhos, transformá-los em metas e realizá-los. Não é tão difícil como a maioria de nós foi ensinada.

Para os poderosos, não é interessante ter um povo que sonhe, porque todo mundo precisa daqueles que só querem ficar parados no mesmo lugar. Mas precisamos ir contra isso se quisermos realizar aquilo que nossa alma pede. Porque no fundo sonhos são só isso, são a tradução do que nossa alma pede, do que é a nossa missão nesta vida. Eu voltei a sonhar.

Viajo mesmo na maionese, sem medo de ser feliz. Quero o melhor, o meu melhor, quero alçar voo, ir mais longe. Hoje eu me permito isso, me permito sonhar e voar. E você?

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.