por Andrea Pavlovitsch

O real e o ideal

Navegando na internet dia desses, para ser mais exata no Orkut, comecei a prestar atenção nos perfis dos meus amigos. Alguns amigos mais íntimos, eu conheço de cor e sabia o quanto eram reais. Ou não. Os que eu não conheço tão bem assim foram os que me chamaram mais a atenção e, baseada nestas informações, fui fazer a minha pesquisa.

As pessoas são, no Orkut, criaturas maravilhosas. A maioria é compreensiva, fiel e está a fim de relacionamento sério. A maioria dos homens respeita as mulheres e a maioria das mulheres gosta de homens inteligentes e que sejam legais e nem tão bonitos e gostosos assim. A maioria adora o seu trabalho, ou pelo menos entra na comunidade da sua profissão com orgulho. A maioria tem objetos caros como bolsas de marca ou celular não sei o que. E, claro, a maioria mente. Muito.

Acredito que o Orkut passou a fazer sucesso a partir da necessidade das pessoas de pertencer a grupos. Antigamente, existiam três grandes grupos dos quais as pessoas faziam parte: escola, igreja e clube. Hoje as pessoas estudam em quatro ou cinco escolas diferentes, raramente frequentam algum clube e a igreja, nem pensar.

Então, como pertencer a algo já que não existem grupos aos quais pertencer? Então aparece o Orkut com a promessa de felicidade. Lá você pode participar de quantos grupos você quiser, desde os amantes da Coca Zero até os viciados em jogos eletrônicos e ninguém, ninguém mesmo, tem nada a ver com isso.

Claro que, nestas horas, só o ego da pessoa aparece. Ninguém coloca no perfil coisas como “Eu solto pum enquanto durmo”,” Ronco que nem um porco na engorda” ou “Adoro comer feijão gelado direto da geladeira”. Todo mundo é legal, divertido e todos são pessoas que nós gostaríamos de conhecer. As fotos são só de viagens e coisas legais que fazemos com os amigos ou aqueles em que o ângulo, a luz e o humor nos favoreceram muitíssimo, muito mais do que pessoalmente. Então, é uma verdadeira seleção de estrelas.

Isso começou também com o advento das celebridades. Todo mundo quer ser celebridade, nem que seja por um único dia. Todos gostariam de ver sua foto estampada num jornal. Todos querem parecer lindos, ricos e sexys. E é aí que começa o perigo. Quando queremos parecer e nem ao menos somos.

Conheço gente que, literalmente, mente. Diz, por exemplo, que é romântico, e isso passa muito longe dele na vida real. Fiquei pensando então porque as pessoas poderiam fazer isso e cheguei a uma conclusão.

O Orkut é o ideal de cada um e não o real. Ali estão estampadas as fotos da pessoa que gostaríamos de ser, das coisas que gostaríamos de ter, das pessoas que gostaríamos de conhecer e da vida que gostaríamos de levar, se não fosse a vida real. O Orkut é a maior fonte de pessoas controladoras do planeta, porque tudo lá é controlável. Seu humor, se você é ou não é sexy, se está ou não procurando um relacionamento e de que tipo. Lá você pode ser atraente, mesmo muito acima do peso. Pode ser inteligente mesmo sem ter concluído a segunda série. Pode ser no virtual, o que não pode ser no real.

E não é o problema do que podemos ou não ser. E sim de sermos o que não somos. Nem pra todo mundo ser belo é importante, mas, para uma modelo, é muito importante. Ser ótimo e matemática são excelentes para um engenheiro, mas completamente inútil pra moça que serve o café (pelo menos enquanto profissão). Então porque ainda corremos atrás do que não somos?

Porque não aceitamos aquilo que somos e, principalmente, a nossa sombra. Saber que não somos aquele ideal de pessoa e que, possivelmente, não seremos nunca. Porque o ideal é uma burrice coletiva. Todo mundo quer ser Gisele, todo mundo quer ser esperto, todo mundo quer coisas que não pode. Só Gisele é Gisele. Só Ayrton Sena é Ayrton Sena e isso não faz de nós piores do que eles. Só diferentes. Então porque criar um perfil público contando um monte de mentiras?

Porque acreditamos nelas. Cruel, não. Passamos a vida acreditando sermos uma pessoa que não somos e, quando somos colocados frente a frente com isso, como dói. Daí vem coisas como depressão, pânico e outras mazelas.

Então, antes que cheguemos a este ponto, que tal uma reexaminada no nosso Orkut interior? Entender quem nós somos de verdade, colocar aquilo que nós somos para todo mundo ver e aceitar e ser, de verdade, feliz? Isso pode ser uma tarefa difícil e que vai nos deparar com coisas que não gostamos. Mas, com certeza, no final, estaremos com a sensação maravilhosa da verdadeira liberdade. Pense nisso!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.