por Andrea Pavlovitsch

Orgulhoso? Eu?

Quando eu tinha uns 22 anos, caí numa depressão profunda, acompanhada de sindrome do pânico e ideação suicida. Por três vezes, planejei morrer, escrevi cartas e tudo. Nunca executei porque alguma coisa dentro de mim gritava "apenas pare", mas é só para ilustrar como a coisa estava feia.

Um dia minha mãe voltou do centro espírita que frequentava com uma mensagem para mim. A mensagem era da minha avó, falecida alguns anos antes. Ela falava sobre como eu precisava ser forte, que tudo aquilo tinha um porquê e que, quando eu deixasse de ser tão arrogante, entenderia muita coisa.

Minha reação foi: arrogante? Eu? Pelo amor de Deus, vó, eu estava mal. Eu me sentia um lixo, achava que era a mulher mais feia, sem graça, burra, pobre e infeliz do mundo. Que eu só atrapalhava todo mundo, tinha medo até da minha sombra, chorava e me lamentava o dia todo e obviamente ninguém me queria, nem para namorar nem como amizade. Eu era a escória humana, uma infeliz doente que merecia a morte. Como ela achava que eu era orgulhosa? Arrogante?

Mas a vida, ah, a vida. O meu problema na época era que eu não tinha a menor ideia do que isso realmente significava. Anos mais tarde, curada da depressão depois de muito processo de autoconhecimento, eu admiti: sim, fui arrogante. Arrogante, prepotente e ridícula. Estava sentada no meu orgulho como um buda gordo e nem tinha me dado conta.

O que é o orgulho? É focar no ego e não na alma. É não reconhecer a sua grandeza. Não reconhecer que existe, dentro de você, todo o bem do mundo. Eu estava ocupada demais querendo vestir a coroa de "perdedora do ano" e bater recordes nisso, que não percebi que eu não era tão boa assim em ser a princesa das trevas. Eu não era a garota gótica, de kajal nos olhos, mandando nos sete infernos. Eu tinha potenciais que todo mundo me apontava o tempo todo. Tinha centenas de qualidades que poderiam ser usadas para me tirar do meu estado constante de vítima das circunstancias. Eu podia sim mudar qualquer crença que eu tivesse a respeito de mim mesma... Quando deixasse de ser tão arrogante.

Quando o ego controla, perdemos o controle. Deixamos de acessar o que é real e criamos um mundo imaginário das sombras. Estamos tão presos na neurose, na fixação em pontos específicos, que perdemos o todo. Não reparamos nas pessoas ao redor. Não vemos que todo mundo sofre pelo simples fato de estar aqui, reencarnado nesse planta.

Desacreditamos no nosso espírito, como algo realmente enorme lá dentro. Bloqueamos esse maravilhoso e único acesso a nós mesmos.

A tristeza que eu tinha e a solidão que eu sentia eram como um imenso buraco negro, infinito. Eu viva escondida arrogantemente nas sombras. Quando comecei a entender que não era tão boa assim em manter isso, comecei a me curar.

E tive ajuda. Porque nosso espírito sempre traz uma solução. Ele sempre quer nos tirar da nossa ignorância e nos tornar conscientes. Temos sombras, coisas jogadas no inconsciente, mas temos muita luz. Não existe sombra sem luz, não é mesmo? E precisamos ter a humildade de aceitar isso. A verdadeira humildade não é se sentir um lixo. A verdadeira humildade é sentir quem nós somos de verdade. Que não, não somos tão especiais assim nem para as trevas, não somos o Batman, o herói exótico que se alimenta de sombras. A verdadeira humildade é saber que somos comuns, até ordinários, seres com dois lados.

Foram muitos anos para eu entender essa pequena chave, mas, quando eu entendi, virei tudo do avesso. Entendi que era só uma boa moça, criada por uma família de classe média. Entendi que tinha acesso a coisas boas e ruins, e que poderia só escolher o meu caminho. Entendi que o que não prestava em mim era só a minha arrogância em aceitar minha pequenez e minha grandeza, que conviviam dentro do mesmo espaço. Que eu não poderia ser aquela que ajuda a humanidade, mas não era tão capaz de ser a vilã da história. E que tudo isso convivia numa pessoa normal, que se aceita e que faz o que dá, com o que tem.

Descer deste pedestal é o passo mais importante na nossa totalidade. E, sim, foi na minha pequena história pessoal. Pequena, mas grande como o meu espírito.

Ah, e obrigada, vó. Foi o melhor conselho que você já me deu!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.