por Andrea Pavlovitsch

Presídios da alma

Alguém aí já se sentiu preso? Ou já esteve preso? De verdade ou de mentirinha? A minha primeira experiência com prisão foi aos 11 anos. Fui presa na festa junina da escola pela garota mais insuportável do planeta Terra, uma tal de Tati. Ela era o cão, sabe a pessoa que vem com a índole ruim, um espírito direto do umbral (inferno) para a encarnação e a bicha foi parar na minha escola. E morando no meu prédio.

Eu sempre fui meio idiota, sempre acreditei tanto nas pessoas. Nunca achava que, de fato, alguém fosse muito capaz de fazer maldade por maldade mesmo. Ela me ensinou isso! Até que teve uma utilidade (no meu caso, para criar meus calos, desde os 11 anos de idade). Fiquei na prisão, mas ninguém sabia. Eu estava só na festinha da escola e passei lá um tempão até que a minha melhor amiga chegasse, desse pela minha falta e, perguntando por mim, me descobrisse numa sala de aula do fundo do colégio. De castigo. Perguntei para o carcereiro quem tinha me colocado lá e ele falou: a Tatiana. O mais engraçado é que eu nunca tive raiva dela. Não é estranho? Ela era a maior chata da face da Terra, mas eu não conseguia ter raiva dela. Ela era do tipo bonito, loirinha, cachinhos caindo pelos ombros em tons de dourado. Os olhos eram verdes esmeralda, mas a coitada, não adiantava, só tinha uma verdadeira amiga. Que só saía com ela porque ela havia prometido o Bruno para ela. O Bruno, o menino que queria me namorar aos 11 anos. Por isso eu fui parar na prisão, né!

Mas não estou só falando das prisões reais. Existem prisões muito, muito piores e nós estamos o tempo todo dentro delas. A prisão que é o medo, que não te deixa sair de casa, que te faz verificar a pressão a cada 20 minutos. A prisão da raiva, que te deixa cega. A prisão da vítima, que te faz se sentir um lixo, morrendo de pena de si mesma. As prisões psicológicas são as mais cruéis.

Uma vez li que você pode aprisionar um homem, mas não pode aprisionar sua mente. Será? Não acredito nisso. Cada vez que uma mulher linda, numa capa de revista, te fuzila com seus quadris estreitos e pele de pêssego, ela está te aprisionando. É como o canto da sereia, ela te encanta para te levar com ela. Presa, no fundo do mar da vaidade infinita. E lá vai você gastar os tubos com academia, botox, maquiagem, batom, perfume para se sentir, parecer ou achar ser um pouco mais bela e mais digna do mundo. 

Cada vez que você se compara a alguém, está se afundando numa prisão suja e mal cheirosa. Cada vez que se coloca como alguém que é menos, está dizendo a si mesmo que não, você não pode. Você não pode sair da lama, você não tem condição de ter um super carro ou uma super casa e, quiçá, ter um carro ou uma casa. Você não é digno do sucesso, não é como aquele cara ou aquela mulher. Não tem o que eles têm. Não é o que eles são. O nome disso é a prisão da inveja. E tem a prisão domiciliar. Aquela que prende você em casa sem a menor vontade de fazer nada da sua vida, justamente porque se comparou, invejou, se envaideceu demais para sair para a vida e ser quem você é. Têm os parentes, os pais, os filhos, o cônjuge que está lá, o tempo todo te olhando, te julgando, te dizendo que você é, no fundo, uma grande porcaria (e não que eles, necessariamente, pensem isso. É a sua visão da coisa).

E você lá, na prisão de culpar os outros. Sou assim porque a minha mãe não me ama. Sou assado porque meu pai não me deu isso ou aquilo. Sou esquisito porque não ganhei um carrinho de controle remoto quando tinha cinco anos. Afundado na lama da hipocrisia de que você não tem nada, mas nada mesmo a ver com tudo aquilo lá. Liberdade, então, o que é? É ser você, do jeitinho que você é, e aceitar isso. Mas isso é complicado! Neste caso é mais fácil se manter na prisão. Conhecem a história dos prisioneiros que passam tanto tempo no presídio que, quando saem, a primeira coisa que fazem é cometer um crime para voltar para lá? A prisão é confortável! A prisão você conhece, é sua amiga e companheira de velha data. Ela te alimenta, ela te conforta, ela te faz sentir alguém, alguma coisa, mesmo que ruim. Lá fora, ser livre é muito perigoso.

Na liberdade, você precisa ser totalmente, completamente, absolutamente responsável por si mesmo. Lá fora é o mundo cão, onde terão milhões de Tatianas a fim de te colocar na prisão. Lá fora é você por você mesmo, não tem amigo, não tem ajuda, não tem nada. Só a sua liberdade. As suas reais escolhas e você dentro de você.

E lá fora é confortável? Lá fora é a real e verdadeira paz. Mas é preciso se libertar, primeiro lá dentro, de tudo o que te incomoda. Da vítima, da mordaz, do carcereiro, de todas as suas amarras psicológicas. Dos “eu não posso, a culpa é dela, eu não tenho nada com isso, eu não tenho culpa de nada”. É preciso parar de perseguir-se para começar a acolher-se. É preciso ser livre, antes de tudo, da sua própria verdade e da sua mente. E depois disso, só depois disso, você poderá dizer que sabe perdoar as pessoas e o mundo. Antes de isso acontecer, tudo o que você disser é mentira!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.