por Andrea Pavlovitsch

Quais são seus preconceitos?

Cenas da rua: esperava eu pacientemente o farol abrir para passar. Estava a pé e tinha um farol de pedestres, numa rua muito movimentada. Um homem atravessou com ele ainda vermelho (para nós) e xinga uma motorista que passava no farol verde para ela, de nomes pejorativos por ela ser mulher. Sim, foi uma tosquice absolutamente desnecessária (para dizer o mínimo). Aí uma senhora, que assiste a cena me fala "Nossa, precisa disso? Além de atravessar errado ainda xinga?". Concordei com ela. Atravessamos quando abriu o farol e ela continuou "Não é melhor atravessar sossegada?". Concordo com a cabeça, já querendo me livrar dela. Aí vem a pérola "Eu não sou racista! Mas você viu a cor? E ainda veio do Norte". E eu, indignada, "Ah minha senhora, pelo amor de Deus", já entrando na padaria.

Não sei se senti mais culpa por ouvi-la, mais raiva ou mais aquela sensação de "oi?". Como assim você não é racista? Pior, não é só um tipo, são dois tipos. Ela quis justificar a atitude errada do homem, com outras duas atitudes erradas e, pior, clamava pelo meu consentimento.

Entrei na padaria ainda atordoada e pensando que eu deveria ter dito poucas e boas para aquela mulher. Que coisa, pleno século XXI, pleno ano de 2015. O povo planejando uma viagem para Marte e a senhora preocupada com a cor da pessoa e achando que é isso que faz dela uma sem educação e maluca?

Não, o homem é um mal-educado. Mas ele não é mal-educado por ser negro, ou por ser nordestino (e nem ficou claro isso para a mulher). Na verdade, ela pegou alguma coisa para acusar e, geralmente, acusamos o que é mais “óbvio”. Mesmo que, lá dentro, a nossa alma saiba o quanto isso é imbecil.

E tem mais. Todos os seres humanos encanados sobre a Terra têm alguma coisa que poderia ser alvo de preconceito. Ela era “velha”, eu era “gorda”, nós duas somos “mulheres” e se procurar ainda acharíamos muitas outras coisas.

O problema é o quanto não limpamos a nossa cabeça. Não paramos para pensar. Só repetimos aquilo como um mantra e sim, tem momentos em que nem nos tocamos disso. Essa semana li uma reportagem na Revista Claúdia, sobre uma moça chamada Carol Rosseti, designer, que faz lindos desenhos combatendo os preconceitos contra a mulher. Ela fala de gordinhas que não “podem” usar listras, de casais de meninas, de poliamor, de meninas que não querem se depilar,  de pessoas com deficiências físicas e mais um monte de coisas. E, quando comecei a ler, percebi o quanto eu também ainda sou preconceituosa com algumas coisas. O trabalho dela e sensacional porque nos faz pensar nas coisas que repetimos como maritacas e nem paramos para analisar.

Pensar, analisar é o que nos liberta da mediocridade. Se o homem tivesse pensado que a motorista não é obrigada a parar porque o farol está verde para ela (dica: quando existe uma faixa, mas tem um semáforo, a prioridade é do semáforo, essa é a lei), se ele não fosse tão mal-educado a ponto de soltar palavrões no meio da rua e destilar seu preconceito contra uma mulher ao volante. Se a senhora não tivesse tanta raiva dentro de si mesma, nada daquela deprimente cena teria acontecido e eu não seria testemunha de tamanha barbaridade. Vamos pensar, gente? Quais são os seus preconceitos? 

Para conhecer o trabalho da Carol Rossetti - Clique aqui

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.