por Andrea Pavlovitsch

Quebrando padrões

Vou fazer uma confissão que só as minhas amigas mais íntimas conhecem: eu sempre quis ser a noivinha da festa junina. Sim, eu sempre quis colocar veuzinho com flores de laranjeira e entrar no salão da quadrilha toda formosa, sendo fotografada e admirada por um público de mães e pais coruja. Mas, como a grande maioria, eu não fui. Eu sempre fui uma criança grande demais, alta, de cabelinhos cortados com a tigela para não dar piolho e crescer forte e de olhos e cabelos bem escuros. E todos sabem que só as meninas meigas, loirinhas e de olhos azuis são escolhidas pelas professoras para serem as noivinhas. Bom, pelo menos era assim no meu tempo.

Isso me frustrou durante muito tempo. Tentei na primeira série, na terceira, na quarta. Tentava nas quadrilhas do prédio, do clube, na academia de dança. Nada. Não é fácil para uma menininha espevitada e aparecida não aparecer. Ou, pior, ser o menino por ser muito alta. De fato, eu nunca fui o padrão de beleza, nem quando criança. Na adolescência comecei a engordar e a coisa piorou muito. Para uma adolescente, não ser o centro das atenções nos bailinhos é complicado. Lá pelas tantas, escutei o menino pelo qual eu era apaixonada, dizer que eu era gorda demais para dançar com ele. Foi o fim da minha auto-estima. Passei anos lutando para levantá-la novamente e me colocar no meu lugar. Hoje eu brinco que, se eu estivesse no meu lugar naquela época, eu não deixaria falar assim comigo.

Assim é com todo mundo, porque todo mundo é diferente. Existem milhões de tipos de pessoas, de tons de pele, de cor e de tipo de cabelo. Existem pessoas gordas, magras e aquelas que nem sabe onde se localizam. Existem milhares de religiões, milhões de culturas e o número de crenças e pensamentos diferentes não tem fim. Uma coisa pode parecer muito boa para um e péssimo para outro. Pode ser perfeito e errado. Tudo depende do ponto de vista.

O problema está em nos acharmos errados por sermos diferentes. E em achar os outros errados por também serem. O mundo é grande o suficiente para abrigar a todos, mas ninguém quer um diferente perto de si mesmo. Hoje mesmo, quando eu estava no metrô, me senti incomodada com a presença de um homem, ao meu lado, que me parecia suspeito. Parecia, claro, na minha concepção de suspeito. Minha irmã, ainda outro dia, disse que um bandido que havia sido preso não parecia um bandido. E, num restaurante ontem, eu vi um homem com seu namorado que, se eu não visse acompanhado, jamais diria que era gay.

Este é o tal do pré-conceito. Nosso cérebro de alguma maneira precisa de concepções das coisas para ajeitar nas nossas mentes de alguma maneira. O perigo é quando achamos mesmo que isso é verdade e não percebemos que nada é da maneira como catalogamos. Muitas vezes, catalogamos as coisas a nosso ver, e no final não é nada daquilo. E, o perigo maior, é quando catalogamos a nós mesmos.

Nossas mentes estacionam na mesmice. No que achamos que é certo. Se estivermos acima do peso nos culpamos por ter comido a mais. Se nosso cabelo não é lisinho nos achamos erradas porque a beleza é o cabelo lisinho. Precisamos ser ricos e bem sucedidos até os 30 anos, casar antes dos 27 e nada de filhos depois dos 32, afinal pode nascer com problemas.

E assim só conseguimos um enorme sofrimento e um sentimento de solidão que não acaba mais. Então, que tal parar de somente acreditar no que se escuta e analisar aquilo que chega até nós. Só assim podemos saber o que é nosso e o que é do vizinho. O que é o nosso certo e o nosso errado e se queremos, realmente, ser um modelo ou apenas ser feliz.

Pense nisso.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.