por Andrea Pavlovitsch

Relações abusivas

Ultimamente, e para o bem da humanidade, estamos ouvindo falar mais sobre relações abusivas. Isso porque as mulheres estão se empoderando, estão entendendo quais são os seus direitos, então aquilo que parecia ser “normal” obviamente não é mais. 

Eu me lembro da relação dos meus avós. Quando eu nasci e comecei a me entender por gente, minha avó já estava muito doente. Ela não andava, tinha diabetes, uma depressão grave (que não foi diagnosticada na época porque, enfim, era aquela época) e mais uma série de doenças que, hoje eu sei, eram completamente psicossomáticas. Ela andava com um galão de água (a diabetes dá muita sede) e um saco plástico cheio de remédios. O predileto era o Doril, que ela tomava como uma solução passageira das suas muitas dores. 

Ela era uma mulher super sensível, mas extremamente batalhadora. Tinha criado meu pai e ajudado a construir, com as próprias mãos, sua casa e mais algumas que acabaram servindo de aluguel. Cozinhava como poucas e ainda benzia as crianças para tirar “aranhão”. 

Mas a relação dela com o meu avô sempre foi difícil. Meu avô era um homem português, baixinho e parrudo, que só tratou bem as netas; com o resto do mundo era bem complicado. Não tinha uma boa relação com ninguém e era extremamente abusador, no caso da minha avó. 

Eu atendia telefonemas de mulheres procurando por ele. Quando não era isso, era a minha avó se arrastando (literalmente) até o telefone, para ouvir que ele tinha uma amante não sei onde. Ele mandou embora várias empregadas por conta do assédio. Uma vez, no dia das crianças, minha avó me deu um dinheiro para comprar umas camisetas de presente. Quando olhamos o dinheiro, percebemos que era uma moeda antiga. Ele dizia dar dinheiro a ela, mas dava a moeda antiga. Como ela não saia de casa sem ele, ela não sabia. 

Algo na culpa dele a levava às cidades de termas de vez em quando. Ele era grosseiro, gritava o tempo todo, reclamava de tudo. Ela não podia nem andar… Eu o via reclamando da louça na pia ou dos panos que não estavam no lugar. No fim das contas, acabou precisando aprender a cozinhar, a contragosto. 

O pior é que ele a amava. E, sim, eu via isso nos olhos dele. Ele fazia pequenas coisas que deixavam claro o amor dele por ela. Minha avó, sem saber o que fazer e literalmente presa em casa, aceitava aquilo como algo que ela ainda recebia dele. Ela não tinha nada. Naquela época, as pessoas não se separavam, ainda mais ela naquela situação. Não havia o que fazer... 

A situação piorou tanto, que ela me pedia, chorando, que eu rezasse para Deus levá-la. A depressão chegou no auge e ela desencarnou num infarto fulminante, aos 62 anos de idade. 

Vi tudo isso. E entendo o que é uma relação abusiva e aonde ela pode levar uma pessoa. A maioria das vítimas é mulher, mas existem alguns homens também, tanto em relacionamento homossexuais quanto em relacionamentos heterossexuais. Abuso não é só bater ou usar violência física. Abuso pode ser pequenas coisas, situações e atitudes. 

Abuso é qualquer coisa que tenha a intenção, consciente ou inconsciente, de diminuir: xingar, bater, ameaçar, usar de força mental ou ser um “orientador”. Ou dizer que você é feia ou que está gorda, que ele não consegue uma ereção por causa da sua aparência, por exemplo. Qualquer coisa que tire o foco dele e coloque em você, de maneira negativa. 

Ter outras mulheres (se isso não foi um consenso entre vocês, como no caso de uma relação aberta) e ainda jogar na sua cara. Comparações, abandonos, desaparecimentos. Coisas que realmente maltratem e, principalmente, que você perceba ser parte de um jogo, não de uma relação amorosa. 

É preciso estar atenta. As pessoas se mostram já nos primeiros dias de relacionamento, então fique esperta. Se notar qualquer coisa, espere, mas observe. Pode ser um dia ruim, ok? Mas se a coisa se repetir é hora de sair fora ou de procurar ajudar psicológica, quem sabe até mesmo jurídica. Não entregue a sua vida a ninguém. Ela é sua, é especial e você merece ser e estar feliz. Pode ser um longo caminho, mas sempre há solução. Sempre tem alguém para nos ajudar. 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.