por Andrea Pavlovitsch

Síndrome de Gabriela

Sabe aquela personagem do Jorge Amado? A famosa Gabriela, cravo e canela, dos seus romances, eternizada pela Sônia Braga e depois pela Juliana Paes na TV? E lembram da música dela, cantada pela maravilhosa Gal Costa e cujo refrão é “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”? Então... é disso que eu quero falar.

Existe um mecanismo de defesa do ego, que são maneiras que o ego tem de se proteger, que se chama racionalização. Quem usa esse mecanismo são aquelas pessoas que você diz “Ah, mas é legal fazer as coisas com calma”, e elas respondem “Não, mas eu não funciono assim, comigo é tudo rápido”. E a partir daí tudo o que você disser, tentando mostrar que existem outras formas de fazer as coisas, ela justifica. Sim, são as pessoas que usam o racional, os pensamentos e os argumentos para se defenderem das mudanças necessárias da vida. São, portanto, portadores da Síndrome de Gabriela.

Ou seja, olha, não adianta, eu não vou mudar isso. E não é que a pessoa não entenda que aquilo poderia ser feito diferente, mas é uma espécie de revolta interna. Aquelas que as crianças pequenas fazem do tipo “Mas isso é azul” e elas respondem “Não é não”, mesmo que seja óbvio e muito azul. Das crianças é esperado isso. Por volta dos três ou quatro anos, que elas se revoltem e comecem a analisar o mundo ao seu redor e não só concordem com o que os pais dizem. É como na adolescência, mas em uma escala muito mais simples. Mas o problema é levar isso para a vida afora.

Isso porque estamos em um mundo que exige mudanças. E não fazemos essas mudanças pelos outros, mas pela gente mesmo. Isso se chama flexibilidade. Quem não tem isso acaba obsoleto, cheio de “verdades” que ninguém mais quer ouvir. Engessa a pessoa. Ela tem um defeito e repete o defeito como se nada estivesse acontecendo. Mesmo que todo mundo ao seu redor diga que aquilo não é legal, ela continua insistindo.

É preciso parar e pensar se não temos um pouco disso (ou muito). Se não estamos presos no mimo de querer estar sempre certos, mesmo quando a vida não vai bem. Aliás, este é um bom termômetro para você saber se está fazendo alguma coisa contra você e a sua alma. As coisas estão boas? Estão dando certo? Se sim, continue o que está fazendo, sempre atento às mudanças necessárias e as correções normais de rumos no caminho. Senão, para tudo.  

Analise onde na sua vida ainda tem espaço para orgulho, mimo, teimosia e, claro, a Síndrome de Gabriela. Porque no final, possivelmente, você não está prejudicando ninguém a não ser você mesmo. Que tal começar por aí, hein?

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.