por Andrea Pavlovitsch

Sobre ser redonda

Eu saí do spa, depois de um final de semana de detox, e fui direto para um primeiro encontro. Ele, um cara de TI, magro, e eu, uma psicóloga, gordinha. É interessante o que descobrimos sobre nós mesmos nesses momentos.

O Spa, por si só, já é interessante. Muitas pessoas com personalidades diferentes, mas com algo em comum. Não, não é necessariamente o amor pela comida, na realidade isso também, mas não foi o que observei. O amor por ajudar os outros, a afetividade latente. 

Chegando ao spa fui recepcionada por homens e mulheres, dentro da piscina na aula de hidro, esfuziantes. Perguntaram o meu nome, de onde eu vinha. Na hora do almoço, peguei uma xícara para tomar um café e fui duramente advertida por uma hóspede de carteirinha de lá. Ela queria que eu usasse o copo plástico para não dar trabalho, segundo ela, para as funcionárias da cozinha. Interessante como eram pessoas que falam muito do cuidado com o outro, dos filhos, dos maridos e pouco sobre si mesmas. Na realidade, peguei mais receitas de pratos gordos nesses dois dias do que na minha vida toda. 

Aí, choque de realidade, vou encontrar um magro de TI, com uma cabeça menos “orgânica”. Lá pelas tantas escutei, abismada já que sou o oposto disso, que não interessava muito para ele o que tinha dentro de uma pessoa, desde que funcionasse. Ele comparou as pessoas com máquinas, dizendo que não deveríamos nos preocupar em como a máquina de cartão funciona, desde que ela pague a sua conta. 

De um lado, os “redondos”, cheios de preocupações com o bem-estar do outro, cheios de uma dependência muitas vezes afetiva. Do outro, o mundo das máquinas, um pensamento quadrado e em série. 

E eu no meio, tentando entender o que diabos o Universo queria me dizer. Bom, o Universo me mostrou o espelho, uma forma mais voluptuosa, cheia de curvas e, sim, bem mais redonda. Bem mais afetiva, esfuziante e preocupada com o outro do que até eu gostaria mesmo de ser. Então, eu sou isso, sou a forma orgânica e feminina, não tem jeito. 

E não tem nada de errado com qualquer um dos lados, não me entendam mal. Na realidade, o mundo precisa dos dois, em equilíbrio. Pelo menos foi isso que o moço do tal primeiro encontro acabou me falando. Sim, essa é só a minha forma de ser e de ver, e eu gosto dela. Ele gosta da dele e talvez isso nos aproxime ou nos afaste, não sei. Mas o importante mesmo é sabermos qual é a nossa praia e viver bem com isso. 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.