por Andrea Pavlovitsch

Medo de amar

Tem uma música bem legal da Adriana Calcanhoto chamada “Medo de amar nº 3”. E o refrão é “Você não tem medo de mim, você tem medo é do amor que você guarda para mim”. É, eu concordo.

Amar não é fácil. Para amar alguém, de verdade, precisamos sempre nos perder um pouco. Ou muito. No livro “Comer, rezar, amar”, Elizabeth (a autora e personagem principal), conhece um brasileiro (ela é americana e estava na Indonésia) bem apessoado. Eles saem juntos, fazem amor loucamente por dias e lá pelas tantas ele a chama para um passeio de dois dias de barco. Ela entra em pânico. Não quer ir de jeito nenhum, acha que está indo muito rápido. Ela sai correndo deixando o moço só e desconsolado.

Depois, a amiga-curandeira fala para ela que ela está com medo de perder o seu equilíbrio. Mas que o equilíbrio é isso mesmo, é se perder de vez em quando. Que ela não ficaria perdida para sempre, só se desequilibraria um pouco, depois voltaria ao normal.

É, mas todo mundo já se jogou de cabeça em um amor. Todo mundo já se machucou, pelo menos um pouco. E quanto mais nos jogamos mais dói. Sim, dói. Quando não somos correspondidos, quando o amor do outro acaba enquanto o nosso não. Quando o outro não se envolveu tanto quando a gente, dói. Mas como fazer um omelete sem quebrar os ovos mesmo? Ah, não dá. Para viver o amor é preciso se arriscar.

E como a personagem, algumas vezes, já sofremos demais. E desenvolvemos um medo terrível de entrar de novo de cabeça. De perder aquele equilíbrio que demoramos tanto para recuperar. Medo de se perder no outro. E sim, isso é comum, mas não é necessário. Não é preciso se perder quando nos apaixonamos e tem sim um remédio para isso. Um remédio simples, mas que sempre ignoramos: a nossa autoestima.

Só dá para amar assim. Primeiro se amar. Se apaixonar perdidamente por si mesmo. Não daquele jeito narcisista, de só pensar em si mesmo, mas de amar cada parte de você. De amar seu corpo, seu jeito e até aqueles defeitos chatos que a gente não consegue mudar. Quando temos isso, até nos jogamos sim, em uma relação, mas é diferente. 

Não será mais uma coisa adolescente, de só pensar no outro e tudo mais, será um equilíbrio. Será uma coisa de querer estar perto, de querer compartilhar mas sem se perder. Não virar outra pessoa. Não passar a amar andar de bicicleta se sempre odiamos exercícios. Não passar a comer só saladas porque o outro é macrobiótico. E no verdadeiro amor, haverá um entendimento. As partes se completarão. Você vai aprender com o outro e o outro aprenderá com você. Sim, você até pode experimentar as coisas que o outro ama e até gostar de algumas. E levar isso com você. Mas sem se despersonalizar.

O medo de amar é comum aos dois sexos e a todas as orientações. Não estamos salvos por sermos homens, mulheres, gays ou heteros. Estamos todos no mesmo barco. Procurando duas coisas: o amor próprio e o amor do outro. Procurando manter o nosso equilíbrio e a nossa vida. Mas não intacta. Só mexida de um jeito diferente. Ah, e é tão bom para abrir mão, né? Já temos que abrir mão de tanta coisa na vida. Que tal abrir as portas para o amor. Amar a si mesmo, de verdade e, depois, amar a tudo ao seu redor. O amor é lindo! Não é mesmo?? 

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.