por Andrea Pavlovitsch

Preguiça

Você me desculpa, não é por mal mesmo nem nada pessoal, mas não vou mais deixar você me fazer de trouxa. Não vou mais ser uma boneca na sua mão por medo. Medo de ser rejeitada, medo de não ser amada o suficiente, medo de ficar sozinha. Medo é só uma fantasia da nossa cabeça mesmo, nada disso existe. Então, foi mal, mas não vai dar.

Você me perdoa. Olha, eu até tentei ser do jeito que você quer, do jeito que você precisa que eu seja. Tentei falar mais baixo e menos. Tentei ser menos emocional e arrumar a cama todos os dias para você, mas é difícil. Eu não gosto de arrumar a cama, a menos que seja para mim mesma. Não gosto de calar o que eu sinto, o que eu penso, o que eu avalio como certo. Não sei ser essa lady não neurótica que você tanto aprecia.

Foi mal, de verdade, mas não vou mais atrás de você. Não vou chamar para um café nem comprar chocolates. Não vou mais ser a única responsável pela nossa relação. Não vou mais dar a mínima se você nem falar comigo ou se só queria mesmo era me ver viva. Não vou mais ficar chateada de faltar ao almoço de domingo ou querer contar sobre as minhas intimidades e você não estar lá para ouvir. Não vou mais me preocupar se você demora na rua ou o que diabos você almoçou hoje ou se o seu colesterol está alto ou se precisa comer mais integral. Chega. Cansei. 

De novo, não é nada pessoal, mas preciso das coisas que eu sei dar. Sei que você dá o seu melhor, pelo menos prefiro acreditar nisso. Mas não é para mim. Se não escolhi sentir o que eu sinto, pelo menos vou escolher melhor, racionalmente. Se você não é de escutar, vou procurar por melhores ouvidos. Se você acha que não sou boa o suficiente para você, com tudo o que eu sei que ofereço, não serei quando estiver triste ou doente. E, acredite, tenho dias de ficar triste e doente. 

Desculpe, talvez eu precise explicar de novo, mas a verdade é que não quero nada de você. Me sinto livre, leve e solta para não precisar. Amar é uma estrada de mão dupla e você nunca foi obrigado a me amar. Amar se ama, só isso. Talvez sejam só frequências diferentes que não se encontraram no meio do caminho. Tudo bem, eu te entendo.

Eu te perdoo por não me amar. Eu me perdoo por todas as vezes que não me amei. Por todas as vezes que, na consciência ou não, eu exigi coisas de você que você não pode nem quer me dar. Por todas as vezes em que eu exigi de mim ser uma coisa que não sou. Eu sou maravilhosa e especial e tenho plena consciência disso. Eu sou um pedaço importante de Deus na terra e mereço ser e estar feliz. Estar em paz comigo, cercada de pessoas que não repitam meus padrões do passado. Amar é muito bom porque o meu amor é sempre meu. Meu amor faz bem para mim, independentemente de você aceitá-lo ou não. Eu vivo pela minha felicidade e pelo meu amor. É só disso que eu realmente preciso para viver.

Não existe pote de ouro fora de mim. A estrada de tijolos amarelos sempre esteve lá dentro. Limpa e linda, over the rainbow.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.