por Andrea Pavlovitsch

Você é a sua mãe

É dia das Mães! Oba, o comércio fica feliz da vida, as Casas Bahia ficam felizes da vida, as agências de propaganda ficam felizes da vida e a vida segue feliz para todo mundo. Seguem felizes as mães também, claro, que vão ganhar um presente gordo (a maioria delas, pelo menos, eu espero). E os filhos que vão poder retribuir (com apenas um presente) tudo o que estas mulheres fazem por eles durante todo o ano.

Na boa, acho pouco, mas tudo bem. Mãe no Brasil é um negócio complicado. Aliás, não acho que seja só no Brasil, mas na América Latina toda. Temos uma cultura extremamente familiar, coisa que não se vê em países como os EUA e a continentes como a Europa. Por lá, um filho que aos 18 anos ainda mora em casa, com os pais, é no mínimo bem problemático. E nada de se mudar pro quarteirão ao lado, estamos falando de atravessar o país mesmo. As pessoas nestes países são ensinadas a se virarem sozinhas desde bem pequenos, ou então tem que aprender na marra, depois de grandes.

A faculdade, aos 18 anos, dá a chance de morar longe dos pais pela primeira vez e isso é comemorado com alegria pelos pais. Logo, a mãe compra uma esteira ergométrica, dois pares de pesinhos e transforma o quarto do filhote numa linda sala de ginástica. Por aqui, é bem diferente. Os pais são muito mais controladores. Têm o péssimo hábito que criar pessoas que não têm condições nenhuma de se criarem sozinhos. Fazem uma arredoma ao redor da criança. A criança que fica criança para sempre, mesmo aos 60 anos de idade. A coisa é complicada porque isso mina, desde muito cedo, a capacidade e a autoconfiança destas pessoas. Só mesmo anos de terapia para consertar os estragos. Claro que tudo isso é sempre em nome do amor. E é mesmo! De verdade. Isso porque confundimos amor com cuidado.

A mãe no Brasil é quase Nossa Senhora e ,quando vemos alguma que bateu, que espancou, que matou o próprio filho isso nos choca mais do que qualquer outra coisa no mundo. É melhor se matar do que matar um filho para a opinião pública. É necessário, sempre, morrer por ele. Eu sei que o instinto de mãe é alguma coisa muito diferente do que todos estão acostumados a ver. Assim, como o tal amor de mãe que, mesmo sendo o filho mais malandro do mundo, é sempre o melhor do mundo. Tenho muitos exemplos de mãe perto de mim. Não só de mães de filhos reais, mas de mulheres que têm o instinto tão alto que são mães de todos ao redor. Entram na lista os filhos, os amigos dos filhos, o marido, o cachorro, todo o prédio, a vizinhança. Isso porque está no DNA, está na alma da pessoa ser mãe. E, de fato, estas precisam mesmo da experiência.

Hoje em dia está mais fácil não querer ter filhos. Antigamente, e ainda hoje, é verdade, a mulher que não quer ter filhos é considerada egoísta. Egoísta? Ué, mas eu vejo tanta gente ter filhos só pra ter quem cuide deles na velhice? E isso não é egoísmo, não? Precisamos parar de ver a mãe como uma santa e vê-la como uma pessoa que passa por uma experiência de cuidar de alguém. Senão, também criamos outro problema. A mãe idealizada é procurada pelas pessoas. Quando elas percebem que sua mãe real, aquela lá que mora em casa, não é uma santa, faz sexo, gosta de coisas esdrúxulas e te xinga de tudo quanto é nome na hora de uma discussão, isso não entra na nossa cabeça. Como assim? Mãe é sinal de pureza e de amar os filhos acima de tudo na vida. Sim, mas são pessoas. Pessoas com problemas emocionais, com feridas, com traumas e que costumeiramente descontam até nos filhos, que são as extensões deles próprios. Tenho certeza de que só tirar esta imagem fantasiosa da mãe já faria com que metade dos conflitos entre pais e filhos cessasse.

Os pais esperam o comportamento exemplar dos filhos, mas muitos filhos também esperam um comportamento exemplar da mãe. E por exemplar leia-se ser a mãe que eu quero que ela seja. E a vida, meu amor, não é isso. Pessoas são pessoas. Mães são só mães. Filhos são só filhos. E todo mundo segue a vida. Então, quando vir aqueles malditos comerciais na TV mostrando mamães felizes e filhos sempre saudáveis, saiba que eles vendem só uma imagem do que é real. Porque mãe de verdade, é quando a gente é a nossa mãe e o nosso pai. É quando a gente cuida da gente com tanto carinho e tanto amor que sobra amor até pros filhos. Porque amor não é algo que você tem um naco e não mais. Amor é infinito. E não é porque você se dá amor que vai faltar pro outro.

Este assunto é muito, muito extenso e creio que precisará de outros artigos. Mas, por enquanto, vamos tirar a ilusão da cabeça. Colocar os pés no chão e aceitar as pessoas como elas são. Independente do rótulo que ela carrega. No final, é tudo ser humano.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.