por Hellen Reis Mourao

Cachinhos Dourados

Cachinhos Dourados narra a história de uma menina que se perde em uma parte da floresta que não conhecia bem. Lá encontra uma casa, que pensa estar abandonada pelos seus donos: três ursos que haviam saído para dar uma volta enquanto o mingau esfriava em suas respectivas tigelas.

Esses ursos às vezes são representados por uma família - como na versão mais popular – ou por vezes, são apenas um urso grande, um médio e um pequeno.

Esse conto foi registrado pela primeira vez em forma de narrativa pelo autor e poeta inglês Robert Southey, e publicado pela primeira vez em um volume de seus escritos em 1837. E nesse original a heroína era uma senhora e não uma menina.

A história em si não apresenta nenhuma ação, apenas mostra o que a menina faz na casa dos ursos: ela come a comida deles, senta em suas cadeiras e dorme em suas camas, até ser flagrada e fugir arrependida.

Em um primeiro olhar podemos alegar que se trata de uma história com um valor moral, que ensina que não se deve entrar na casa dos outros sem permissão, pois pode ser perigoso. Mas se observarmos alguns símbolos podemos extrair mais coisas.

A menina adentra a floresta, ou seja, ela adentra em uma área desconhecida que representa seu inconsciente.

Ela busca alimento e um lugar de aconchego. Podemos supor que devido a idade da menina, que não é mais um bebê e que já se arrisca na floresta, que ela chegou àquela fase onde há a perda do paraíso materno. Ela já se vê como um indivíduo separado da identidade da mãe e observa que seus pais são pessoas com qualidades, mas também defeitos.

Vemos que ela não se sente completamente à vontade na casa e demora a encontrar uma cama boa para dormir e isso por pouco tempo, pois o verdadeiro dono da cama chega e ela deve sair. Ou seja, ela ainda busca o aconchego e colo materno, mas agora vê que já é mais difícil de acontecer, pois já não é um bebê.

Quantas vezes não nos pegamos ansiando por um colo, por um momento de aconchego devido às duras provas do dia a dia. Essa é a nossa criança interior que sente falta do colo, mas que deve se levantar e ir à escola e fazer seu deve de casa.

O mundo externo (representado pela floresta) para Cachinhos ainda é um desconhecido e causa temor.

Chama a atenção o fato de os donos da casa serem ursos. Os ursos são animais ligados à deusa grega Artemis, que é uma representante da Grande Mãe e que apresenta uma personalidade indomável, vingativa e feroz.

Na Grécia havia um culto a Artemis de Brauron, que possuía a forma de uma ursa. Meninas entre 12 e 16 anos eram consagradas aos seus serviços, passando a ser chamadas de ursinhas, pois não tomavam banho e se expressavam de forma grosseira. Essas sociedades tinham como objetivo proteger a personalidade em formação dessas meninas. Assim elas se lançavam à vida com mais maturidade sem se chocar cedo demais com as questões da sexualidade.

No conto podemos supor que os ursos representam o lado terrível da Grande Mãe, que assusta e que “expulsa” a pessoa para a vida externa e adulta. Cachinhos provavelmente é uma adolescente que chegou a idade de se lançar à vida.

Esse conto então reflete a angústia de enfrentar o desconhecido mundo fora do âmbito familiar, mas que se não for encarado e enfrentado não nos leva a maturidade e ao desenvolvimento de nossa personalidade.

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.