por Andrea Pavlovitsch

A sorte de um amor tranquilo

Hoje eu ouvi essa frase três vezes. Uma amiga de Facebook escreveu que ela encontrou um a 19 anos. Uma cliente disse que quer. E outro disse que quer também. Mas o que é um amor tranquilo? Com sabor de fruta mordida, como disse Cazuza. Eu vou me arriscar a uma análise, mesmo não sendo a minha especialidade.

Uma fruta mordida é uma fruta que perdeu a ansiedade. Depois que você morde uma maçã, já sabe o gosto. Já sabe a sensação que ela te dá na boca. Já sabe se você gosta dela ou não. Um amor com sabor de fruta mordida é um amor sem ansiedade, sem muitos mistérios. É um amor maduro. E como é difícil achar estas duas coisas. Amor. Maturidade.

Se a maioria das pessoas ainda se comporta como crianças no jardim da infância. Loucas por amor e atenção, mas completamente egoístas frente ao outro. Lembro-me de estar no parque, na pré-escola. Eu corria do Marcelo, um menino alto e loiro pelo qual eu nutria certa afeição. A maneira de ele dizer ei, gosto de você era me perseguir no recreio e, quando chegava perto de mim, fazer um carinho tímido nos meus cabelos. Assim, escondido de todo mundo. Eu adorava aquilo. Mal via a hora de ir pra escola no outro dia.

Ele me dava o que eu tinha pouco em casa: atenção positiva. E não é isso que corremos atrás a vida toda: atenção? Alguém que olhe para gente e diga de um jeito ou de outro: você é especial! Você é única! Você é a pessoa pela qual eu trocaria o recreio e a brincadeira com os outros meninos! Você é amada por mim! Queremos ser amados. Queremos ser olhados. Mas como queremos isso se não olharmos e amarmos a nós mesmos?

Você consegue se ver como alguém com quem você se casaria? Ou passa a vida procurando os seus defeitos, esquadriando as suas mazelas e provando pra você, e para todo mundo, que não merece ser feliz? Qual é o gosto da sua fruta? Amargo? Doce? É uma fruta que escorre pela boca ou algo que você precise tirar o caroço? Então, queremos a sorte. E a sorte é para poucos.

Se esperarmos o amor como esperamos ganhar na loteria, estamos bem fritos. Fritos e sozinhos, mesmo na multidão. E não interessa que tipo de relacionamento você queira. Não interessa se lhe falta o tesão de um amor adolescente, se te falta tranquilidade ou paz. Tudo isso está, primeiro, dentro de você. E assim que você achar isso lá dentro, procure mais um pouco. Olhe para os lados, para cima e para baixo. O amor tranquilo estará lá, esperando você tomar posse dele. De um coração que, também solitário, só quer a sorte de um amor tranquilo.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.