por Hellen Reis Mourao

Jasmine – A princesa do filme Aladdin

A princesa Jasmine hoje está entre as princesas mais famosas da Disney e habita o imaginário das meninas atualmente. No entanto, ela não é protagonista de nenhum filme. Ela apareceu no filme do Aladdin em 1992 (adaptação do conto homônimo que está na coletânea As Mil e uma Noites), e depois nos filmes “O Retorno de Jafar” e “Aladdin e os 40 ladrões”.

Jasmine de certa forma é um marco em nossa cultura, pois ela quebrou a hegemonia das princesas brancas. Apesar de ser coadjuvante no filme Aladdin, ela conquistou o coração das meninas. Ela conquistou o coração das meninas justamente por reivindicar mais independência para utilizar seus conhecimentos, e principalmente para poder seguir seu coração e escolher seu marido.

Jasmine, além de ser de uma raça e uma personalidade diferente das princesas até então conhecidas, mistura características ocidentais e orientais em uma mesma personagem. Ou seja, ela simboliza uma união de opostos. Ela faz parte de uma cultura oriental, mais introvertida (o conto original é da China muçulmana), mas busca inserir em sua vida uma atitude que a mulher ocidental já vive – a escolha do cônjuge. Jasmine busca fazer algo por conta dela mesma e isso é uma transgressão, o que é praticamente impossível em um mundo oriental muçulmano.

No conto original, Jasmine é apenas a princesa com a qual Aladdin se casa (seu nome nem é citado). Ela não questiona e não conhecemos seus anseios, algo muito comum nos contos de fadas antigos. Por essa razão Jasmine mostra uma transformação na apresentação do feminino nos contos. Ela é mais humana, mais próxima da mulher contemporânea, dessa forma ela mostra assim os desejos e anseios da mulher, como o de estabelecer uma relação mais profunda com um companheiro, o de poder mostrar seus dons criativos e seus talentos.
E ela transgride se juntando ao seu amado Aladdin em aventuras. Sua natureza introvertida agora encontra um contraponto extrovertido em Aladdin e assim ela consegue expandir seu horizonte, saindo um pouco da unilateralidade.

Em contos de fadas é comum o rei estar doente, velho, cansado e o reino precisando de renovação. Na animação Aladdin, o rei, pai de Jasmine, está velho e cansado e sucumbe ao poder de seu aspecto sombrio, simbolizado por Jafar.

















Vemos na mitologia e contos de fadas exemplos disso: Deus sucumbiu às insinuações do diabo contra Jó. Ele deu ouvidos ao seu lado sombrio, e isso significa que quando a consciência está fraca, precisando de renovação, ela não consegue suportar os opostos em sua vida diária, sucumbindo para um dos lados.

O reino também não possui uma rainha, ou seja, o aspecto de Eros e do sentimento não está presente na consciência coletiva. Quando esse aspecto está reprimido há um endurecimento dos sentimentos e uma instalação de seu oposto, o poder! As leis são embrutecidas e não há lugar para o lado humano. Vemos isso em uma cena que Jasmine permite que uma criança roube uma maçã e sendo então condenada a perder a mão.

Ela pode não ser a heroína da trama, mas ela é quem traz a renovação para consciência e transforma Aladdin em rei. Aladdin não é um príncipe, ele é comum, uma figura do povo, o que não é comum em contos de fadas. Isso significa que a transformação e a renovação ocorre por um aspecto renegado e incomum da consciência coletiva. Ele na verdade é um ladrão, uma figura que se aproxima do deus Hermes, o deus da astúcia, inteligência, comunicação e das possibilidades, mas que também é padroeiro dos ladrões. Isso significa que as qualidades de astúcia e inteligência não estão sendo utilizadas de modo criativo e para o crescimento e expansão da consciência.

Hermes é um deus das possibilidades, ou seja, com Aladdin é possível trazer a consciência novas possibilidades e assim ampliar a visão contaminada por uma atitude unilateral. E com Aladdin o feminino pode novamente reinar em harmonia com o masculino, por meio de Jasmine.

"Jasmine pode não ser a heroína da trama, mas ela é quem traz a renovação para consciência e transforma Aladdin em rei"

A princesa também tem de lutar com o preconceito contra seu gênero. Ela luta para que seus subordinados aceitem as ordens dela, pois quem dita as ordens é Jafar, o tirano ambicioso colocado pelo próprio rei como comandante. Além disso, ela só terá o poder de “se livrar” de Jafar quando for rainha, o que só acontece com o casamento. Isso mostra que até certo momento, em nossa sociedade, a mulher só tem valor com o casamento. De forma velada, isso perdura até hoje.

A princesa, como é comum nos contos de fadas, possui um animal que a auxilia, e compreender a natureza desse animal nos dá uma pista sobre a personalidade dela. E seu animal é um tigre, símbolo de força, coragem, inteligência, astúcia, mas também da cólera e da crueldade. Ele é um símbolo do aspecto instintivo da princesa que a auxilia na realização de seu desejo mais profundo de se casar com aquele que ela escolhesse. O tigre também mostra um aspecto do seu animus, que se encontra ainda instintivo.

Jasmine então mostra a transgressão que a mulher realizou na sociedade. A transgressão de não se limitar ao papel designado à mulher pela sociedade, e de ocupar funções e atuações que antes eram designadas aos homens. Hoje temos presidentes mulheres em alguns países, algo que estava fora de cogitação em tempos anteriores.

Jasmine também mostra que mesmo assumindo papéis e atuações antes masculinas, é possível manter características femininas. Ela usa de agilidade e força física também para alcançar seus sonhos, juntamente com uma imensa lealdade a si mesma e aos seus sentimentos e mundo subjetivo. Hoje a mulher tem grande dificuldade em “bancar” seus desejos e mundo subjetivo, uma vez que ela possui uma insegurança muito grande em relação a sua feminilidade.
 
Portanto, Jasmine vem nos mostrar que mesmo pertencendo a uma cultura diferente da ocidental, ambas as culturas possuem algo em comum: elas impõe regras de conduta e modelos de comportamento, principalmente nas questões de gênero masculino e feminino. Um homem mais sensível hoje ainda não é bem aceito, uma vez que se trata de uma característica “feminina”.

Dessa forma, transgredimos até certo ponto, mas ainda nos sentimos inseguros em relação a nossa própria subjetividade e a forma que vamos expressar nosso mundo interior no externo.
Colocar nossa interioridade e subjetividade para fora e bancar a conta disso é uma tremenda transgressão. E é isso que Jasmine faz, ela luta por seus desejos e expressa sua individualidade, bancando com autoridade e doçura seu mundo interior.
 

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.