por Andrea Pavlovitsch

Largando o bebezão interior

Estou em uma maratona de um seriado americano que eu gosto muito, mas nunca tive a chance de assistir (Deus abençoe a Netflix), chamado Glee. É a história de um coral de escola de ensino médio, onde quem canta são os "excluídos" da escola, os “não populares”. 

Pois bem, a arqui-inimiga é a treinadora das líderes de torcida, chamada Sue Sylvester, que na história decidiu se casar. Mas como ela é uma pessoa de personalidade "particular" ela não achou ninguém e decidiu se casar com ela mesma, com direito a festa e convite. Engraçado e bizarro, como uma soap opera pede.

O engraçado foram os votos. Ela prometia estar do seu lado, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até os fins dos próprios dias. Interessante. Lembrei da cara da Beyonce no clipe "If I was a boy" falando "Commitement", como uma coisa importante em um relacionamento. E o que significa "Commitement"? Comprometimento.

Esperamos sempre isso dos outros. Esperamos (e a mulherada sabe do que eu estou falando) que o outro se comprometa com a gente. Talvez a gente nem espere tanto um casamento mesmo ou chamar de "namorado" na frente das amigas, mas alguém que fale "tamu junto" na hora que precisa. Quando precisamos tomar uma decisão difícil, quando temos um aumento ou quando decidimos que é a hora certa de ter um filho. E como isso é difícil de conseguir às vezes.

Só que, como sempre, o problema nunca é o outro. Ok, você quer alguém comprometido com você e seus problemas, ou quer alguém para se pendurar e resolver tudo como se você fosse um bebê chorão? Esse tipo de energia é lida pelo Universo que pensa:  "Hum, ela não está realmente querendo isso". E como ele sabe? Quando ele vê que você não se compromete de verdade com você. Quando não faz, como a treinadora Sue Sylvester do Glee, um casamento consigo mesma.

Você quer sucesso, uma carreira legal. Decide abrir um pequeno negócio mas “ai dá um trabalho. Precisa fazer tanta coisa, poxa, não dou conta”. Começa a exigir que as pessoas a seu redor comprometam-se com você, te ajudem, afinal: "Ei, eu estou tentando fazer dar certo aqui". Na menor frustração desaba a chorar e a culpar a vida "injusta" que faz as coisas darem certo pra sua vizinha, mas não para você: "Trabalhar no domingo? Ai que injusto", e lá vai você com seu pequeno muro das lamentações, se colocar em um baita papel de vítima que não tem os recursos necessários da vida. Oh vida. Oh azar.

Lembro que, quando adolescente, eu pensava que, se tivesse uma boa estrutura eu realmente poderia emagrecer. Se eu morasse em um lugar com uma academia, com uma sauna e uma boa piscina, passaria o dia fazendo exercícios e aí sim, ficaria magrinha. Alguns meses depois meu pai comprou um novo apartamento e adivinhe? Tinha tudo isso. Sauna, piscina e uma bela academia de ginástica no térreo de dar inveja a muito marombeiro de plantão. E eu? Bom, fiquei empolgada por umas, sei lá, duas semanas, depois desisti. E passei a colocar a culpa na falta de tempo: "Se eu tivesse tudo isso mas não precisasse ir para a escola, aí sim".

Nos dois casos faltou uma coisa simples: Um real comprometimento com aquilo. Não é com tudo que queremos mesmo nos comprometer. Algumas atitudes nossas são sempre de bebezinho, que precisa, precisa, precisa. Parece que o mundo está sempre nos devendo alguma coisa e a gente fica desesperado (como uma criança batendo os pés no chão e fazendo birra) porque ninguém dá para nós. E eu posso até ver você fazendo um bico quando lê isso e pensando: "Não é assim não, tá?".

Antes de qualquer coisa, de querer que qualquer pessoa se comprometa com você, você precisa fazer isso consigo mesma e parar de reclamar. Tudo precisa de trabalho e esforço e não, ninguém no mundo tem nenhuma obrigação com isso. Ninguém faz nada para ninguém se não sentir que o outro está contaminado pela alegria em fazer aquilo e que sim, faria sem ele. Que se você quer mesmo que uma coisa dê certo, se aquilo fala com a sua alma, você fará qualquer coisa, eu disse qualquer coisa por aquilo. Quem quer faz e quem não quer manda, já dizia a minha mãe. 

E o primeiro grande compromisso que você tem é com a sua felicidade. É ótimo ter alguém ajudando (seja um marido ou esposa, um assistente ou a cunhada), mas nenhuma ajuda vai vir até que você realmente pense e sinta: "Ah, se não tiver eu me viro", e parar de ser criança. Se virar é ser adulto e fazer as próprias escolhas. É a nossa mais pura expressão de liberdade. E comprometer-se é exercer essa liberdade, de verdade, com você e com o mundo. Eu sei que, se quiser emagrecer, não interessa a estrutura, até dois sacos de feijão resolvem. Mas tudo é preciso querer, do fundo do coração. Pense nisso!

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.