por Andrea Pavlovitsch

Qual é o seu “dia do muro”?

Há alguns anos atendi uma moça. Era muito bonita, inteligente, aproximadamente 30 anos e tinha um jeito meigo e doce. Fizemos um trabalho incrível com a terapia. Ela ajustou muitas das questões que trouxe e deu tudo certo.

Tínhamos um código para falar sobre uma coisa que aconteceu com ela ainda na adolescência. Ela era apaixonada por um garoto da escola que parecia retribuir, mas que nunca chegava perto dela. Cansada de tanto esperar e vendo a formatura batendo à sua porta, ela tomou coragem e o chamou para uma conversa. Marcou com ele em frente a um muro que tinha na escola e assim, na cara e na coragem perguntou: “E aí, você gosta de mim? Porque eu gosto de você”. Qual não foi a surpresa dela quando ele disse: “Não sei do que você está falando. Eu tenho namorada”, e saiu andando a deixando escorregando atrás de uma porta fechada ao som de Elis Regina. Esse foi o seu “dia do muro”.

O problema não foi o dia em si. Isso foi bem legal. Alguém que teve a coragem de sair do papel de “mulherzinha” e partiu para cima. Pois bem, o problema veio depois. O trauma deixado pelo incidente fez com que ela se retraísse. Passou a aceitar pessoas que a conquistavam e não ia atrás de mais ninguém. Passou a ser a escolhida e não a que escolhe. Acabou infeliz, em um casamento que ela não queria ter começado e bastante frustrada.

É a nossa reação natural a um trauma. Ela foi para o tal muro cheia de expectativas. Ele diria que a amava! Os dois se beijariam loucamente deixando a escola toda com inveja e seus pais preocupados. Seria o auge da sua existência. Mas não podemos supor a reação dos outros e o que vem de fora sim, nos atinge muito. Principalmente durante a adolescência.

Depois de atender essa moça, notei que a maioria das mulheres (e alguns homens) tinham a sua própria versão do “dia do muro”. A minha tinha sido quando vi o garoto que eu gostava beijando outra garota na porta da escola. O chão se abriu sobre os meus pés esperançosos e tímidos. Não reagi, mas chorei semanas a fio por não ter tido a coragem de procurá-lo antes. E sim, isso permeou todas as minhas escolhas futuras. Cheguei a forçar relacionamentos (fadados, obviamente ao fracasso) por medo de não ter tentado à exaustão. Também nunca dei certo, óbvio. Também gerou traumas.

As histórias são diferentes, mas o sentido é sempre o mesmo. O nosso incrível medo de rejeição. No momento em que passamos por qualquer coisa assim, um medo imenso se instala dentro de nós. O medo de sermos rechaçados, rejeitados, colocados de lado. Isso ainda é uma das coisas mais difíceis de serem tratadas em terapia, mas tem solução.

Precisamos, primeiramente, nos perdoar. Por ter chamado o rapaz para o muro ou por não ter feito isso e também não dar certo. Precisamos entender que fizemos o melhor com os recursos emocionais que tínhamos na época. Não podemos voltar no tempo, mas podemos perdoar aquela menina ou aquele menino que fez “besteira”.

Segundo, precisamos nos amar sempre, em primeiro lugar. Você é a única coisa em comum em todos os seus relacionamentos amorosos, então cuide muito bem disso. De a você mesmo o respeito, carinho e amor que pretende ter de outra pessoa.

Terceiro, não crie expectativas. Sei que este é talvez o passo mais difícil, mas ninguém está livre de um segundo, terceiro ou quarto dia do muro. Não podemos mandar no coração das outras pessoas, só podemos sentir o que sentimos e, sim, continuar tendo a coragem de nos expor abertamente para o mundo ou para o ser amado. Só não vale forçar nada, nem achar que, só porque você se apaixonou, isso vá acontecer do outro lado. Ninguém manda no coração, lembre-se disso. Sinta o que tiver que sentir e saiba o que fazer com esse sentimento. O amor é sempre seu e é sempre bom sentir.

E você? Qual é o seu dia do muro? Como conseguiu sair dele ou ainda está lá parado? Pense bem, isso poderá mudar a maneira como se enxerga no mundo.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.