por Hellen Reis Mourao

Chapeuzinho Vermelho

Chapeuzinho Vermelho é um conto de fadas clássico, original do século XIV. Esse conto sofreu inúmeras adaptações, mudanças e releituras, tornando-se parte da cultura popular mundial, e uma das fábulas mais conhecidas de todos os tempos.

A versão impressa mais antiga é a de Charles Perrault. A versão de Perrault retrata uma "moça jovem, atraente e bem educada", que ao sair de sua aldeia é enganada pelo lobo, que come a avó e arma uma armadilha para a menina que também termina sendo devorada, sem final feliz. Essa versão foi escrita para a corte do rei Louis XIV, no final do século 17, e pretendia levar uma moral as mulheres para perceberem os avanços de maus pretendentes e sedutores.

A versão mais conhecida do conto é a dos irmãos Grimm, onde no final aparece a figura do caçador que abre a barriga do lobo e salva a avó e a menina.

Chapeuzinho Vermelho precisa romper as tradições

No começo do conto de fadas de Chapeuzinho Vermelho, temos apenas três personagens: a mãe, a menina e a avó. Ou seja, apenas elementos femininos. O pai não é citado, podemos supor então que ele é ausente. Portanto, há um desequilíbrio entre as forças femininas e masculinas.

Podemos ainda supor que o elemento masculino é desprezado e desvalorizado. E essa desvalorização é herdada como uma maldição familiar. Foi algo aprendido, inconscientemente pela via familiar, já que no contexto se encontram mãe, avó e filha.

A família de Chapeuzinho vive em um contexto puramente matriarcal e o animus desvalorizado se torna perigoso ao emergir na consciência dessas mulheres. O lobo, então, passa a representar esse masculino desvalorizado e perigoso. E ele apresenta um aspecto de perigo por ser indiferenciado, e por isso permanece em um estado primitivo e animalesco.

É interessante observar que no dinamismo familiar de Chapeuzinho, o masculino é tido como devorador, o qual a mulher precisa aprender a se defender. Nessa família, entregar o coração a um homem pode ser perigoso.

Mas como o conto nos sugere, Chapeuzinho busca romper com essa tradição passada através de sua avó. De certa forma, Chapeuzinho, inconscientemente desejou a morte da avó, pois ela ingenuamente indica ao lobo o caminho da casa dela. Essa morte na verdade é simbólica, não é a avó verdadeira que deve morrer, mas as tradições passadas por esse feminino ancestral que sustenta uma imagem do masculino perigosa.

Existem muitas interpretações referindo que Chapeuzinho está entrando na puberdade. O que parece correto.

Nesse estágio, a menina quer ter contato com o mundo externo, sua libido (representada pela cor vermelha) a impulsiona ao encontro com o outro, o masculino. E para isso ela deve deixar a proteção do lar e romper com tradições, mas primeiramente ela precisa empreender uma jornada para seu mundo interior e entrar em contato justamente com esse feminino ancestral representado pela avó. Conhecendo suas raízes mais profundas ela pode iniciar uma transformação.

Adentrar a floresta é um ritual de iniciação. A menina entra nos domínios do inconsciente. Faz parte da iniciação feminina entrar em contato com a Grande Mãe de forma a criar uma identificação para o seu ego em formação.

Mas ao chegar à casa da avó, a encontra devorada pelo lobo. A avó está tomada pelo animus em julgamentos depreciativos, rigorosos e estéreis.

A menina então sem conseguir afirmar sua individualidade também é engolida por esse masculino devorador. Ou seja, ela é contaminada pelas opiniões da avó a respeito da vida e dos relacionamentos. Pode acontecer nesse estágio da menina, passar por uma experiência infeliz no campo amoroso e generalizar (atitude habitual do animus negativo) essa experiência.

A redenção de Chapeuzinho e de seu feminino ancestral se dá por meio do caçador. O caçador representa o animus mais humanizado, ele abre a barriga do lobo, que estava dormindo, com um machado. Ou seja, ele possui a capacidade de discriminação, a capacidade de distinguir o que é da esfera do feminino e o que é da esfera do masculino. Ele tira Chapeuzinho da inconsciência, lhe dando a capacidade de distinguir o que é bom e ruim para ela e o que é dela e o que é do seu feminino ancestral.

 

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.