por Hellen Reis Mourao

Os Três Porquinhos

O conto “Os Três Porquinhos” foi divulgado por Joseph Jacobs, escritor nascido em Sydney, Austrália, em 1853, mas já era um conto conhecido e suas primeiras edições datam do século XVIII.

“Os Três Porquinhos” ganhou uma versão cinematográfica realizada pela Disney em 1933. Nessa versão, os porquinhos são chamados de Fifer Pig, Fiddler Pig e Practical Pig que no Brasil receberam os nomes de Cícero, Heitor e Prático.

O que chama a atenção nesse conto e que o diferencia dos outros, é o fato dos personagens serem exclusivamente animais. Os personagens poderiam ser três meninos humanos, entretanto o autor optou por porcos.

Quando animais aparecem em sonhos isso significa que aquele conteúdo representado por eles ainda não pode ser assimilado pela consciência humana e, deve se esperar para que chegue o momento certo para se humanizarem. Com isso podemos supor que o conteúdo apresentado pelo conto “Os Três Porquinhos” ainda não podia ser assimilado totalmente pela consciência coletiva da sociedade da época.

Mas, acredito que o autor criticava a raça humana e seu comportamento por meio da figura do porco. Na mitologia grega, a bruxa Circe transformava os homens em porcos. No cristianismo a parábola das pérolas lançadas aos porcos, representa o desperdício de ensinar verdades espirituais a quem não teria capacidade de entendê-las.

Dessa forma supomos que os homens não estavam prontos a encararem a verdade sobre si mesmos contida nesse conto, por isso o autor disfarçou (intencionalmente ou não) com os animais.

Os porcos decidem sair do lar da mãe (em algumas versões, da avó), indo construir cada um a sua própria casa.

O conto inicia então com algo que tem sido cada vez mais raro na sociedade: o jovem decidir sair da casa da mãe e montar (construir) a sua própria. A maioria adia cada vez mais essa saída devido a preguiça e comodismo, e assim arrastando a adolescência por mais tempo do que o devido.

Cada um dos porcos lida de uma forma com suas casas: o mais preguiçoso, não queria se cansar e construiu uma cabana de palha, o outro constrói uma casa de madeira, mas sem usar os devidos pregos de aço, enquanto o terceiro opta por construir uma casa melhor estruturada, com cimento e tijolos.

Isso mostra como cada pessoa lida com sua própria vida. Ao sair de casa alguns ainda anseiam o paraíso perdido, buscando apenas o prazer e fugindo do trabalho mais duro, como os dois primeiros porcos.

Um dia um lobo surge e bate a porta de cada um dos porcos com a intenção de devorá-los. Com um sopro forte, ele desfaz as casas de palha e madeira.

O lobo é uma figura recorrente em contos de fadas e sempre aparece quando há uma figura ingênua e infantilizada, como por exemplo, Chapeuzinho Vermelho. No conto, os dois primeiros porcos eram bastante ingênuos e buscavam apenas o prazer e a brincadeira. Pessoas ingênuas demais são presas fáceis de lobos devoradores. Toda ingenuidade tem o seu preço.

O final da história é bastante conhecido: o lobo vai atrás dos porcos até a casa de tijolos, soprando sem sucesso, fugindo para não mais voltar.

Mesmo com a óbvia lição de moral dada pelo conto, vemos que só o trabalho e o compromisso com a realidade da vida pode nos livrar da ingenuidade e nos trazer a sagacidade para nos livrarmos dos lobos devoradores ao nosso redor,fazendo com que deixemos de ser presas fáceis.

Hellen Reis Mourao

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Analista junguiana. Formada em psicanálise e psicologia analítica. Especializada em Mitologia e Contos de Fadas. Atendimentos em psicoterapia.