por Andrea Pavlovitsch

Em nome do amor: ciúmes

Há alguns anos, no auge do segundo filme de Bridget Jones no Brasil, eu, como dona da maior comunidade do Orkut sobre ela, fui convidada pela Revista Claudia para dar uma entrevista sobre “as nossas Bridget Jones”. As mulheres de 30 anos (eu ainda tinha 29) e suas agruras. Foi engraçado reunir as minhas amigas no extinto Friday's e ficar contando histórias da nossa vida.

Uma das histórias que contei foi sobre um ex-namorado. Na época, ele morava em Osasco e tinha o péssimo hábito de desaparecer por alguns dias. Depois de mandar 400 SMS (sim, faz tempo) e não obter respostas aos meus telefonemas, fui até lá. Ele tinha dito, na última mensagem, que ficaria em casa. Possivelmente estava com problemas ou até um pouco deprimido, mas a minha autoestima inexistente não acreditou muito nisso.

Peguei o carro às 10 da noite e dirigi incólume até Osasco (eu moro na Zona Leste, então é uma pequena viagem). Cheguei lá e mandei outra mensagem dizendo que estava na porta. Ele não respondeu. Toquei a campainha. Uma, duas, três vezes. Nada. Toquei de novo e vi a irmã (ah, sim: ele morava com a irmã e a família toda dela) descendo de pijamas e me perguntando que diabos eu estava fazendo lá. E daqui a pouco ele. De pijamas. Cara de sono. Com a mesma pergunta.

Fiquei com muita vergonha de mim e com mais vergonha ainda de ter caído no truque da minha cabeça. Na minha imaginação, ele estava se esbaldando com uma mulher linda, com peitos maiores que o meu, cintura de pilão e exuberantes cabelos louros pela cintura. E ria de mim enquanto faziam loucuras pela sala, cozinha, quartos e banheiros numa visão infernal de um filme pornô de quinta. Ai, que vergonha!

Sim, é isso que o ciúme faz com a gente. Deixa a gente louca. Mas, claro, só quem se permite isso. Estou contando essa história porque, sim, me vi fazendo isso de novo. Não tão grave, não a ponto de pegar carro nem nada, mas deixando a imaginação da maldade e, principalmente, uma ansiedade doentia tomar conta. Isso não é normal. Para ninguém.

Atendo muitas mulheres e vejo o quanto é fácil estragar relacionamentos por causa disso. Nos focamos tanto que perdemos o controle. E, sim, somos ensinadas a dar uma importância tão grande ao relacionamento que criamos um inferno interno a que fica impossível resistir. Acabamos fazendo coisas assim para aliviar aquela sensação interna horrível que nem real é.

Por isso, é importante se conhecer e entender o que, de fato, está acontecendo. Quando estamos numa relação, principalmente quando é uma relação recente, é fácil entrar nisso. Ainda estamos inseguras, ainda não temos certeza de nada nem sabemos se teremos e é como se eliminássemos o problema antes dele aparecer. Mas, quando fazemos isso, aí é que ele aparece (nunca saberemos se ele nunca apareceria).

Se você entrar nisso, perceba, primeiro, o que está incomodando. Sim, mulher tem uma intuição para essas coisas, mas e daí? Quando entramos na ansiedade do ciúme, essa intuição para na hora de funcionar. Mesmo que ela te diga “relaxa, ele só quer um tempo para respirar”, você não escuta. Por isso é bom ter e cuidar da própria vida. Ver se não está focada demais naquilo por estar infeliz em outras áreas. Veja o que poderia fazer para si mesma, desde fazer as unhas a repensar a sua vida financeira, ao invés de criar coisas na sua cabeça.

O outro é só o outro. E não é nossa obrigação “fazer dar certo”. Ou consertar erros ou não ser a “trouxa”. Você será um dia, invariavelmente, apenas aceite. Quando aceitamos que está tudo certo, no seu lugar, percebemos melhor as coisas ao redor. Se ele, ou ela, precisa de um tempo, dê. Deixe que a vida cuida. Sabe aquele velho ditado: cuida do jardim para virem as borboletas? Não pira! Sei que é difícil, mas vai economizar muito choro.

Andrea Pavlovitsch

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Terapeuta porque adora ajudar as pessoas a se entenderem. Escritora pelo mesmo motivo. Apaixonada por moda, dança, canto e toda forma de arte. Adora pão de queijo com café e não pretende mudar o mundo, mas, quem sabe, uma pequena parte da visão que temos dele.